menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A faca e o falo

7 0
yesterday

Em Agarrar a Faca pelo Gume, Inês Bernardo revela, sem clamores ou rebelião, tudo o que uma mulher tem de sofrer apenas por ser mulher num mundo falocêntrico.

Em Agarrar a Faca pelo Gume, Inês Bernardo revela, sem clamores ou rebelião, tudo o que uma mulher tem de sofrer apenas por ser mulher num mundo falocêntrico, carpindo um longo luto dotado de uma memória tão fragmentada e não linear como a realidade atual, com micronarrativas a brotar do filão principal, onde amar é tão mais urgente para quem não o consegue facilmente.

Talvez haja o feminino e o feminismo; por vezes encontram-se numa interseccionalidade, formando uma zona profundamente cinzenta, sem espaço para erguer estandartes, pois nada mais existe exceto os locais que se abandonam por impagável culpa da vítima, onde o tempo se mede em cafés e se secretaria a morte na duração da pungente corporização da vida interior em carne fervente e em sangue efervescente.

Aqui, as acusações não são cruzes, mas setas apontadas ao peito, e as casas silenciosas falam em nome da mudez das paredes de quartos alugados à hora por tipos sebosos a usar wifebeaters com nódoas, onde a humanidade vai para se reinventar em gemidos murmurados para não incomodar.

A ruína dos sonhos e o cansaço fazem pessoas desaparecer em locais erigidos por mulheres e ruídos em homens ausentes, nele penetrando ocasionalmente, alteram a relação de forças e estranham a proximidade onde ela deveria surgir naturalmente.

Deixamos de saber distinguir entre escolha e destino até finalmente esquecer haver algo para distinguir; continuamos sem nenhuma proteção, exceto a construção do género, onde brincar enquanto rapaz é diferente de brincar enquanto rapariga, e atravessar essa fronteira equivale a correr o risco de ficar para tia — não de Cascais — ou pior, a transformação involuntária num homem.

A alternativa à dura vida dos campos é a esperança gorada das fábricas, almejadas como a desejada emancipação que nunca chega, mesmo para os homens exploradores da mão de obra ou para os pescadores; a classe é apenas uma e a luta é maior no seu interior, escolhendo a serventia como escape para a servidão de trabalhar a terra ou a cidade, ambas fundamentalmente o mesmo, ainda que na segunda tudo se assemelhe a um régio palacete para quem cresce rodeada de paredes de pedra irregular, partindo para a universidade para adiar a inadiável precariedade.

Deus é, acima de tudo, vingativo, e o patrão, para quem a ajuda é propriedade privada e, como tal, o mal — dizia Proudhon — é a sua encarnação maldita, com a crueldade como inclinação natural, ostentando a criança como novo fracasso dos sonhos parentais, para quem, anos depois, fumar na ala de oncologia confirma o que já se sabia: é sempre tarde demais para tudo.

Os corpos, para sempre errados, lutam, são ausentes ou opressores, quebram e são quebrados, até se desfazerem em merda que se dilui na terra ou em nós, porque o único infinito que ainda existe é o do scroll vazio, para o qual arremessamos, no derradeiro gesto, a nossa melhor e mais falsa versão, refletida na lâmina de uma faca.

Hugo Filipe Lopes (Cobramor) Autor. Tradutor. Editor. Antitudo. Copy criativo. Sociólogo. O necessário para um precário


© Barlavento