Opinião | “It’s the economy, stupid”
Em 1992, Bill Clinton venceu as eleições presidenciais com o slogan “it’s the economy, stupid” (“é a economia, estúpido”). Um ano antes, o Presidente George H. Bush tinha uma aprovação de 90%, na sequência da Guerra do Golfo.
O slogan tornou-se omnipresente na política americana. A economia é o principal tema que determina o voto dos eleitores dos EUA.
Não surpreende, por isso, que as big tech estejam especialmente empenhadas nos resultados das próximas eleições para o Congresso. Uma vitória dos Democratas permitirá que o Congresso recupere poder político, algum controlo da ação do Presidente Trump e, eventualmente, aprove legislação para uma efetiva regulação das plataformas digitais e da Inteligência Artificial.
De acordo com o Financial Times, grupos pró e contra regulamentação da Inteligência Artificial angariaram, até ao final de fevereiro, mais de 265 milhões de dólares, mais 100 milhões que na campanha de 2022 (para o mesmo período temporal).
Dois terços dos americanos afirmam ser necessária maior regulamentação. O preço da eletricidade tornou-se um tema de campanha, sobretudo nos estados americanos onde estão a ser construídos data centers, que as populações já não veem como um sinal de modernidade. São um custo que as populações têm de suportar nas suas contas da luz, ora, que as infraestruturas atuais não conseguem acudir ao aumento do consumo e é necessário construir novas centrais de gás, cujo custo de construção é partilhado por todos os consumidores. A tal soma-se o aumento do preço da água e das telecomunicações, infraestruturas indispensáveis para a net funcionar.
O sentimento de ameaça ao posto de trabalho também se alastra. Já não são apenas os mais pobres vítimas da gig economy (os precários da Uber, do Taskrabbit ou do Rover) que temem a perturbação que a Inteligência Artificial irá (está a?) causar. No final de fevereiro, na plataforma Substack, um post publicado pela Citrini Research (uma pequena empresa de consultoria) contribuiu para uma venda massiva das ações de empresas de software informático e, em consequência, o índice Dow Jones caiu 822 pontos.
Não se tratou de uma análise às contas das empresas ou até ao anúncio de que essas empresas tinham perdido importantes contratos ou realizado despedimentos coletivos.
A Citrini Research publicou um texto onde apresentava um cenário, para junho de 2028: a Inteligência Artificial tornou-se tão produtiva que as empresas despediram funcionários bem pagos. Com menos rendimento disponível, deixam de consumir, a procura entra em colapso (nos EUA são os 10% mais bem pagos que representam 50% do consumo) e incumprem nos empréstimos à habitação, causando uma nova crise financeira. O desemprego atinge 10%.
A divulgação, quase em simultâneo, da nova versão do LLM Claude, da Anthropic, capaz de programar com grande precisão, exacerbou o sentimento de que um setor relevante para economia, e que tem sustentado o crescimento do mercado financeiro – as empresas de software − estará em risco, e, com isto, os investimentos realizados. O mercado reagiu vendendo e investindo em setores como o gás e o petróleo – afinal, os data centers precisam de energia…
Pouco importa se o cenário da Citrini Research era, sobretudo, especulativo. Mais relevante é a reação dos mercados demonstrar a consciencialização de que a disrupção provocada pela Inteligência Artificial poderá ter impactos massivos na maneira como as sociedades ocidentais estão organizadas, se os nossos representantes eleitos não regularem a forma como é utilizada.
Na Europa, onde o financiamento privado dos partidos é proibido (por exemplo, em Portugal são fixados limites ao valor gasto nas campanhas, há limites de doações por indivíduo e estão proibidas contribuições anónimas e de empresas), esperemos que na definição da política pública na utilização da Inteligência Artificial prevaleça o interesse público e não de quem tem meios para financiar e influenciar candidatos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
