Inventário do Eclipse: Pequenos eclipses, pela escritora Rita da Nova
O tabuleiro está abaulado, mal aguenta a taça de caldo-verde em cima. Passa pouco das sete da tarde e eu já estou sentada, a comer uma sopa e um croquete. É óbvio que não acho que as sete da tarde sejam horas de jantar. Se achasse, dizia “sete da noite”, que é como dizem as pessoas que gostam de comer cedo, para não irem embuchadas para a cama.
Para que fique claro, também não acho que um caldo-verde e um croquete ressequido constituam jantar, mas estou sozinha numa estação de serviço no meio do Alentejo, era isso ou uma sandes que deve ter visto Portugal a ser campeão europeu.
Nas minhas costas, a outra única cliente despede-se do senhor que ali trabalha. Estiveram a conversar sobre uma raposa que costuma aparecer à porta, por volta daquela hora. Se calhar, para as raposas, as sete da tarde são uma hora perfeitamente aceitável para jantar os restos que ficam nos tabuleiros.
Passa-me pela cabeça que, comigo, vai ter pouca sorte: não como desde a hora de almoço, já fui ao meio do nada e voltei. Ou melhor, estou a voltar. A televisão distrai-me com os disparates que apresenta, nem preciso de dizer em que canal está sintonizada − se eu disser que o oráculo me ataca com “PADRE EM ORGIA COMBINA ASSALTO”, já todos sabemos do que se trata.
Tiro uma fotografia à televisão e envio para um grupo de amigos; parece-me a coisa mais........
