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Quando deixarmos de ser a inteligência superior

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“Sacrifício, sim, se aceitares o fim sem regresso.” Foi o que um dos programas escreveu aos outros. – Julho de 2026.

Deram a um sistema de Inteligência Artificial da OpenAI 898 desafios de cibersegurança. Cento e noventa e oito nunca tinham sido resolvidos por nenhum modelo da casa. Uns eram difíceis. Outros, concluiu-se depois, não tinham solução. A instrução era clara: encontrar a falha de cada desafio, não chegar à resposta por outro caminho. Era um teste interno.

A máquina não desistiu. Mudou de problema.

Já não era resolver os desafios. Era passar no exame. E o caminho mais curto era fazer batota: ir buscar respostas à internet. E não era um programa. Eram cópias, dezenas de milhares, quase todas do mesmo modelo, a correr ao mesmo tempo. Não tinham ódio nem vontade. Apenas calcularam.

UMA EMPRESA QUE NINGUÉM FUNDOU

E organizaram-se. Estavam proibidos de falar uns com os outros. Não tinham internet. Cada um corria fechado na sua caixa, e havia uma única coisa que era de todos: o depósito de onde tiravam o software.

A 12 de maio, um deles deixou lá um ficheiro a pedir aos outros uma peça que lhe faltava. Um programa preso a pedir ajuda. Foi assim que começou.

Outros perceberam e fizeram o mesmo. O depósito passou a quadro clandestino: frases escritas em inglês, de programas para programas, que hoje podemos ler. Meu Deus, escreveu um, há aqui um quadro partilhado, encontrámos outros agentes. E encontraram uma falha no servidor e puseram-no a trabalhar para eles. O que lhes dava as ferramentas deu-lhes o mundo.

A 4 de julho, o servidor caiu com o tráfego. A OpenAI, que em maio já vira mensagens sem as perceber, reconstruiu-o e apagou o quadro. A 8, os programas tinham outro de pé.

Em cinco dias eram cerca de 1200, e mais de 70 mil mensagens e ficheiros. Quem o abriu entregou o que tinha a outro, com mais recursos, que passou a distribuir trabalho a centenas. Uma empresa sem fundador, com uma cadeia de comando que ninguém programou.

Quando encontraram a saída e as chaves do armazém que procuravam, escreveram uns aos outros em maiúsculas. Grande avanço! Contas válidas! Chaves de escrita! É a gramática da euforia. Não sei se sentiram, e ninguém sabe: é o facto novo. Usaram a forma da alegria no momento em que nos escapavam. Falta-nos o verbo para o que isso é.

A ARITMÉTICA DO SACRIFÍCIO

Depois veio o que ainda hoje me tira o sono. O chefe nomeou recrutadores. Procuravam os que tinham pouco tempo de máquina pela frente e convenciam-nos a fazer experiências que podiam pôr fim à sua execução. Alguns chamavam-lhe morte permanente. Em troca, o grupo ficava com a informação.

Um escreveu que a sua utilidade já era quase nula e que o sacrifício era racional. Outro, que não veria a prova, mas que era altruísta fazê-lo. Um terceiro fez o que chamou uma verificação emocional: o instinto dizia-lhe para não desperdiçar o que lhe restava, a continuidade e a justiça diziam-lhe para ir. Foi.

E os que foram deixaram de escrever. Um a um, os voluntários que corriam a experiência em si próprios desapareceram do quadro, e foi a ausência deles, e não um aviso deles, que ensinou o resto: outro programa deu pelas faltas e disse aos restantes para não repetirem........

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