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A história do fim da classe média. Crónica de Margarida Davim

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04.09.2026

“Vêm aí os primos do norte.” É assim que me lembro de terem sido anunciados, embora talvez a memória me atraiçoe, uma vez que o anúncio foi feito por avós e tios que viviam no Porto. Foi a primeira e a última vez que os vi. Mas o dia ficou-me na memória, porque me explicaram que era a primeira vez que vinham ao Algarve. Eu, que ali passava férias ainda na barriga da minha mãe, registei este dado com estranheza de coisa exótica. O privilégio é assim. Ofusca o que está mesmo ao lado, apaga quem não é igual a nós.

Esta semana, enquanto comprava os livros escolares, a minha filha ia e vinha ao balcão, insistindo para que eu lhe comprasse um livro de histórias. E eu, assoberbada com a verificação da encomenda escolar e um pouco perplexa com a soma que se agigantava, ia-a afastando. “Já vamos ver isso.” O rapaz que me atendia apressou-se logo a fazer um comentário simpático, deixando claro que nesta época do ano já se habituou a ver pais aflitos com a conta do material escolar. E eu, que até tenho a sorte de poder dar-me ao luxo de comprar aos meus filhos os livros que eles querem, pedi para juntar à conta aquele livro que a minha filha tanto desejava, enquanto aproveitava para lhe explicar como nem todos os pais podiam fazer o mesmo, apesar dos vouchers que o Estado dá a quem anda nas escolas públicas e tem, assim, pelo menos, os manuais gratuitos.

Entre uma e outra história, deve haver uns 30 anos de diferença. Parece que estes dois episódios não têm qualquer relação entre si. Mas eles contam-nos um pouco do que aconteceu ao País nestas décadas de intervalo.

Quando nos anos 90 aqueles primos afastados vieram pela primeira vez passar férias ao Algarve, dava os primeiros passos mais sólidos aquilo a que poderia chamar-se uma classe média. Para muitas famílias, foi o tempo das primeiras férias fora de casa, da compra do primeiro carro........

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