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PISA 2025: Quando a escola já não tem tempo para pensar

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10.09.2026

Há resultados que não deviam ser recebidos com a agitação habitual dos rankings, das declarações políticas superficiais e das comparações internacionais. Há resultados que pedem silêncio. O PISA 2025 é um deles, porque os números agora publicados não contam apenas a história de uma descida em matemática, leitura e ciências; contam a história mais funda de uma sociedade que começa a ter dificuldade em proteger aquilo de que toda a aprendizagem precisa: tempo, atenção, curiosidade, relação e pensamento. Portugal não caiu num abismo, mas recuou depois de anos de progresso, aproximando-se de desempenhos que julgávamos definitivamente ultrapassados. A pergunta mais importante, por isso, não é saber quem falhou. É perceber que mundo estamos a construir à volta de quem aprende.

É uma pergunta incómoda, porque nos impede de colocar toda a responsabilidade sobre os ombros dos alunos. Um adolescente que chega à escola cansado, saturado de estímulos, habituado a interromper continuamente a atenção e a receber respostas instantâneas não é apenas um aluno com um problema de disciplina ou de motivação. É também o produto de um ambiente cultural. Vive numa casa onde os adultos podem estar fisicamente presentes e mentalmente ausentes, numa sociedade que transformou as notificações constantes em reflexo, a velocidade em virtude e a disponibilidade permanente numa espécie de obrigação moral. O telemóvel que compete com o livro não nasceu nas mãos das crianças. Foi colocado primeiramente nas mãos dos adultos.

Por isso, a discussão sobre os ecrãs precisa de ser mais inteligente do que a habitual guerra entre tecnófilos e tecnófobos. O neurocientista francês, da Universidade de Lyon, Michel Desmurget tem razão quando alerta para o preço que a cultura recreativa dos ecrãs pode cobrar à atenção e ao tempo disponíveis para ler, estudar, brincar, conversar e dormir, mas seria cientificamente abusivo transformar essa variável numa explicação total para os resultados do PISA. O que sabemos é mais interessante: a distração digital aparece associada a piores desempenhos e está presente dentro da própria sala de aula. Em Portugal, 31% dos alunos dizem que os colegas se distraem frequentemente com dispositivos digitais durante a maioria ou a totalidade das aulas de Ciências. O problema, portanto, não é a existência da tecnologia. É a dificuldade crescente em impedir que a tecnologia decida aquilo a que prestamos atenção.

A atenção tornou-se o grande campo de batalha educativo do nosso tempo, precisamente porque quase tudo à nossa volta foi desenhado para a capturar. É aqui que a investigação de Maryanne Wolf, cujo percurso de vida se destaca pela transição da paixão pela literatura para a vanguarda dos estudos científicos sobre como o cérebro aprende a ler e os impactos da era digital na cognição humana, merece entrar nesta conversa portuguesa. A neurocientista da leitura tem mostrado que ler profundamente não consiste apenas em recolher informação: envolve inferir, estabelecer relações, avaliar a verdade, entrar na perspetiva de outra pessoa e construir pensamento crítico. Quando lemos apenas à superfície, procurando palavras-chave e avançando depressa, perdemos parte desse trabalho interior. Wolf resume a ideia com uma formulação extraordinária: “quando fazemos uma leitura rápida, literalmente, fisiologicamente, não temos tempo para pensar. Ou sentir.” 

A frase é mais importante do que parece. Uma escola não ensina apenas conteúdos; ensina ritmos mentais. Ensina uma criança a ser capaz de permanecer diante de uma dificuldade sem fugir dela. Ensina-a a suportar o intervalo entre a pergunta e a resposta. Ensina-a a descobrir que certas coisas não podem ser compreendidas à velocidade de uma pesquisa. Esta é uma das maiores tarefas da escola contemporânea: proteger o tempo lento do........

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