Os relatórios sobre as escolas e os silêncios graves
As escolas portuguesas são hoje das instituições mais avaliadas do País. Produzem relatórios, planos, monitorizações, indicadores, auditorias e processos de autoavaliação. Nunca se mediu tanto. Nunca se escreveu tanto sobre educação. E, no entanto, permanece uma pergunta desconfortável: sabemos realmente o que se passa dentro das escolas? Enquanto os relatórios oficiais nos falam de liderança, gestão, resultados e estratégias, milhares de alunos continuam a enfrentar problemas de saúde mental, dificuldades de integração, situações de violência silenciosa entre pares e profundas desigualdades invisíveis. Professores e assistentes operacionais vivem crescentes níveis de desgaste profissional. As famílias procuram respostas para problemas que raramente encontram expressão nos documentos públicos. Talvez tenha chegado o momento de olhar para os relatórios de avaliação com menos reverência e mais espírito crítico. Não para desacreditar quem avalia, mas para compreender que uma escola é sempre muito maior do que os indicadores que a descrevem.
Há documentos que, à primeira vista, parecem oferecer uma visão objetiva da realidade. Têm linguagem técnica, gráficos, indicadores, conclusões e recomendações. Beneficiam da autoridade institucional de quem os produz e apresentam-se como instrumentos de rigor e de melhoria. Os relatórios de avaliação externa das escolas, elaborados sob coordenação da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), pertencem a essa categoria. A sua missão é nobre: acompanhar a qualidade do sistema educativo, identificar pontos fortes, sinalizar fragilidades e contribuir para uma escola melhor. Ninguém de boa-fé poderá negar a importância desse trabalho. O problema começa quando confundimos o relatório com a realidade que ele procura descrever.
A maioria dos pais e encarregados de educação lê estes documentos acreditando que está perante um retrato fiel da vida escolar. E é precisamente aqui que a reflexão crítica se torna necessária, porque um relatório não é a realidade. É uma representação da realidade. É uma seleção de dados, uma metodologia de observação, um conjunto de escolhas sobre aquilo que merece ser medido, valorizado e divulgado. Como qualquer fotografia, mostra uma parte da paisagem, mas nunca a paisagem inteira.........
