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A geometria do acaso

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29.03.2026

Das coisas que sumiram, daquele goleiro de plástico, enfaixado com fita crepe amarela, é do que mais sinto falta. Mais do que da televisão de tubo, da capa do botijão de gás e do tapete de crochê, do pote com estampa de vaquinha no armário da cozinha ou do rádio-relógio na mesinha ao lado da cama. Mais do que o filtro de barro ou o tostex de alumínio que prensava o pão na chapa sobre o fogão (e a gente tinha que ficar ali em pé, segurando pelo cabo de um lado e depois do outro, até o lanche de queijo quente chegar no ponto desejado). Não vou negar que a xícara âmbar é nostálgica, assim como a cortina debaixo da pia da cozinha ou como o piso de caquinho vermelho na garagem lá fora. Também não nego que dá saudades das tardes refrescantes de sábado numa piscina de mil litros seguidas de um chá de hortelã com pão caseiro quentinho com manteiga. Dá muita saudade, inclusive, do telefone com fio, uma época em que o telefone era preso e a gente era mais livre.

Acontece que aquele goleiro era diferente. Pegava todas, nos jogos mais difíceis. Daqueles em que eu jogava, sozinho e, talvez por indecisão inconsciente, tornava a disputa extremamente acirrada. O estádio era improvisado na lajota do piso da sala ou no taco do piso do quarto. Ainda que a jogada fizesse disparar o botão com a pretensão da precisão de um mestre, toda a estratégia se desfazia no exato milímetro em que o disquinho de plástico encontrava a fenda entre um azulejo e outro. E era ali, naquela pequena depressão, que a geometria perfeita do chute cedia lugar à magia do imprevisto. Talvez fosse a vida ensinando que sempre guarda uma rachadura pronta para desviar o curso da nossa melhor jogada imaginada. Cada jogada parecia desafiar as leis da física e era definida pelos caprichos do rejunte do piso, em que um leve desvio gerava um contra-ataque que parecia ser fatal. E era nesse contra-ataque que, com dois ou três toques, o tempo parava, zaga inteira aberta, o atacante herói pronto para estufar a rede, o preparo para o chute para o gol...

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... Mas meu goleiro de plástico, enfaixado por uma fita crepe amarela, parecia se esticar ao máximo com a ponta dos dedos, de mão trocada, flutuava para uma linda ponte e realizava a defesa improvável da partida que se desenrolava no tempo quase que estático daquela tarde. Aquela defesa mostrava que, mesmo com a imperfeição do piso mudando o rumo da jogada, nem tudo estava perdido.

Acho que é por isso que, das coisas que sumiram, daquele goleiro de plástico, enfaixado com fita crepe amarela, é do que mais sinto falta. Se bem que, de certa forma, ele ainda reside nessa geometria do acaso, inspirada nas jogadas em que o botão enrosca no rejunte do azulejo ou na divisória do piso. Essa coisa das imperfeições do estádio improvisado no chão da sala que ensina a lidar com os imprevistos e as rachaduras da vida real.

*Giovanni Nobile é jornalista e escritor. Já publicou os livros A galeria de arte da Fifi (2023) e Enquanto o resto sufoca (2024). Especializado em Gestão Cultural e Indústria criativa pela PUC Rio, também estuda língua portuguesa e literaturas. Escreve crônicas sobre a atmosfera do futebol no portal Mundo Botonista e é colunista de literatura na Rádio UEL FM, emissora educativa da Universidade Estadual de Londrina.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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