Amigos próximos sabem que a sorte é uma das minhas grandes obsessões. Não apenas no sentido prosaico de ter sorte na vida, no jogo, na amizade, no amor. No sentido moral da expressão. Será que a forma como avaliamos o caráter de alguém tem em conta a sorte que a pessoa teve ou não teve?

"Ele é honesto", "ele é falso", "ele é talentoso", "ele é fraco": até que ponto as nossas avaliações não são determinadas pela sorte do agente?

Essas preocupações, mais ou menos desarticuladas, encontraram a sua expressão filosófica no clássico ensaio de Bernard Williams, "Moral Luck", sorte moral, que li anos atrás.

Imaginemos Gauguin, escrevia o autor. Sim, aquele burocrata que abandonou tudo –carreira, mulher, filhos– para ir pintar no Taiti.

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Se Gauguin tivesse falhado, ele seria visto como um egoísta e irresponsável que abandonou os seus deveres como cidadão e pai de família.

Mas Gauguin não falhou; tornou-se um dos grandes pintores da arte moderna. Hoje, olhamos para a sua decisão como um ato de coragem e autenticidade –uma forma de seguir a sua vocação contra todas as resistências.

Para além do talento, Gauguin teve sorte. E essa sorte enobrece-o aos nossos olhos (ou, pelo menos, aos olhos da maioria).

Será que Kant estava fundamentalmente errado quando afirmava que a essência da moralidade era imune à ideia de sorte? E que só a intenção do agente importa?

Acontece que a sorte não serve apenas para enobrecer a ação; a sorte também pode ser má sorte, destruindo as melhores intenções que qualquer decisão possa ter.

Um bom exemplo disso é o extraordinário filme de Asghar Farhadi, "Um Herói", já nas salas.

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(Curioso: quando olho para os melhores filmes deste 2022, tenho um japonês, "Drive My Car", um francês, "Ilusões Perdidas", e um iraniano, "Um Herói". O cinema americano desapareceu do radar.)

Mas o filme de Farhadi é talvez o melhor dos três por revisitar o conceito de "sorte moral" com uma narrativa simples e poderosa.

Rahim Soltani (o excelente Amir Jadidi) está na prisão por dívidas. O seu sócio fugiu com o dinheiro e o credor não perdoou Soltani.

Mas a sorte sorriu ao pobre homem: a sua mulher encontrou uma bolsa com moedas de ouro e Rahim terá parte do dinheiro para começar a pagar a dívida. Assim que o credor o permita.

O credor não está interessado em receber parte do valor, no entanto; exige o valor inteiro. Rahim pondera: valerá a pena insistir? Ou a atitude mais justa é devolver as moedas ao seu legítimo proprietário e esperar por dias melhores?

Não sabemos as razões profundas que levam Rahim a devolver as moedas. Sede de protagonismo? Um despertar de consciência? Arrependimento? O que sabemos é que ele toma a "decisão correta".

Ao fazê-lo, o seu gesto transforma-o em herói. E todos querem participar nesse heroísmo –os diretores da prisão, as associações beneficentes da cidade, a mídia, a família, os vizinhos.

É o primeiro momento de sorte moral: ao devolver as moedas, Rahim conseguiu a reabilitação social e até financeira que perdera com a sua condenação. O futuro sorri para ele.

O problema é que a sorte moral não funciona apenas em sentido ascendente. Ela é especialmente perversa quando subverte as melhores intenções –e o brilhantismo do filme está na forma trágica, banal e trágica, como vai tecendo a queda de um homem.

A modernidade política sempre lidou mal com a ideia de sorte. Se tudo está nas nossas mãos, como prometiam os "philosophes" iluministas do século 18, como admitir que a contingência ainda tem uma palavra no destino das nossas vidas e das nossas sociedades?

Eu próprio, todos os anos, testo os meus alunos com uma pergunta de algibeira: o que é a felicidade? Há respostas para todos os gostos. É ter saúde. Dinheiro. Amor. Fama. Amigos.

Nunca nenhum me respondeu com a sorte –o conceito que está na raíz da própria palavra felicidade ("felix"). A sorte sempre foi a pedra no sapato da cultura racionalista, para quem a razão basta na construção de todas as utopias.

Um erro e uma ilusão. Controlamos menos do que pensamos. E, como na história de Rahim, talvez a única forma de sobrevivermos aos humores do destino é mantendo no lugar a nossa consciência.

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'Um Herói', de Farhadi, mostra como sorte destrói as melhores intenções

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30.07.2022

Amigos próximos sabem que a sorte é uma das minhas grandes obsessões. Não apenas no sentido prosaico de ter sorte na vida, no jogo, na amizade, no amor. No sentido moral da expressão. Será que a forma como avaliamos o caráter de alguém tem em conta a sorte que a pessoa teve ou não teve?

"Ele é honesto", "ele é falso", "ele é talentoso", "ele é fraco": até que ponto as nossas avaliações não são determinadas pela sorte do agente?

Essas preocupações, mais ou menos desarticuladas, encontraram a sua expressão filosófica no clássico ensaio de Bernard Williams, "Moral Luck", sorte moral, que li anos atrás.

Imaginemos Gauguin, escrevia o autor. Sim, aquele burocrata que abandonou tudo –carreira, mulher, filhos– para ir pintar no Taiti.

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Se Gauguin tivesse falhado, ele seria visto como um egoísta e irresponsável que abandonou os seus deveres como cidadão e pai de família.

Mas Gauguin não falhou; tornou-se um dos grandes pintores da arte moderna. Hoje, olhamos para a sua decisão como um ato de coragem e autenticidade –uma forma de seguir a sua vocação contra todas as resistências.

Para além do talento, Gauguin teve sorte. E essa sorte enobrece-o aos nossos olhos (ou, pelo menos, aos olhos da maioria).

Será que Kant estava fundamentalmente errado quando afirmava que a essência da moralidade era imune à ideia de sorte? E que só........

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