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Bolos, raposas e laços

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Alguns dos meus familiares tentam reproduzir muitos dos pratos que as minhas avós cozinhavam (eu incluo-me nesse grupo). Com isto cria-se um fio ritual, uma repetição rítmica que preconiza um tempo eterno, onde se regressa à essência. Não é apenas retornar à memória de infância, também faz com que nos aproximemos dos nossos antepassados ou familiares, garantindo nessa sucessão uma continuidade comum. Repetir determinada receita ressuscita os nossos mortos.

A receita familiar implica maneirismos únicos e identitários. Em nossa casa fazemos assim e este modo é considerado, sem qualquer corroboração lógica ou empírica, o melhor. Aliás, não só é o melhor como é o certo.

Em The Path, de Michael Puett, lemos que "todos temos certos ‘rituais’. Seja uma chávena de café pela manhã, jantares em família, a noite de encontro regular de um casal às sextas-feiras ou umas corridas às cavalitas com os filhos antes de dormir: consideramos estes momentos importantes porque dão continuidade e significado às nossas vidas e nos ligam a quem amamos”.

Quando o principezinho conhece a raposa, diz que gostaria de brincar com ela. A raposa diz-lhe que não o pode fazer, pois ele não a cativou. O principezinho pergunta o que significa cativar. A raposa diz que é criação de laços: “— Sim, Laços — disse a raposa. — Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti...”

E cativar, escreveu Saint-Exupéry, é algo que os seres humanos esqueceram: “Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!”

O principezinho pergunta então o que terá de fazer: “— Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.

Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto...

O principezinho voltou no dia seguinte.

— Era melhor teres vindo à mesma hora — disse a raposa.

— Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... Precisamos de rituais.”

A raposa vai-se aproximando com o ritual, o seu coração ficará inquieto, ansioso por aquele momento. Vai-se preparando. Músculo nervoso, o coração.

Curiosamente, escrevi, em 2022, um ensaio a criticar uma parte desta ética que também está bastante presente numa outra obra do mesmo autor, Cidadela, mas este texto não é sobre a problemática que poderá surgir a posteriori.

Regresso pois à questão ritualística, a Puett e a Confúcio, que era o filósofo dos rituais: “Pense no Livro 10 dos Analectos, repleto de anedotas sobre os hábitos quotidianos de Confúcio. Ele não alisava a sua esteira apenas porque gostava de ter as coisas arrumadas. Compreendia que acções aparentemente insignificantes, como organizar o local onde as pessoas se sentariam com ele, criavam um ambiente diferente que as podia afectar profundamente. Os equivalentes modernos do ritual da esteira poderão ser as nossas rotinas à hora de jantar: quando pomos a mesa — talvez colocando individuais e guardanapos, ou mesmo acendendo velas —, saímos das nossas vidas normais e criamos uma realidade alternativa para nós e para quem está connosco. Mesmo que o dia tenha sido stressante, com muitos conflitos, não é necessário que alguém declare: «Muito bem, está na hora de parar de discutir e relaxar». O ritual da mesa de jantar cria simplesmente a pausa que permite entrarem todos num modo diferente.”

Sim, o ritual é uma maneira de começar a arranjar o coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito, um modo de dar nós, criar laços.

As receitas familiares fazem isso mesmo. Algo tão simples como um bolo de canela, passas e nozes — o bolo que a minha avó materna mais fazia — aproxima raposas, cria laços, ressuscita mortos.

Escreve quinzenalmente no SAPO, à quarta-feira//Afonso Cruz escreve com o antigo acordo ortográfico


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