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A frieza do Sol

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15.04.2026

Para escapar da prisão, Dédalo construiu asas artificiais para si e para Ícaro, usando penas de aves coladas com cera. Antes de partirem, Dédalo advertiu Ícaro para não voar demasiado alto, pois o calor do Sol derreteria a cera, nem demasiado baixo, por causa do mar. Ignorando os conselhos do pai, Ícaro aproximou-se do Sol, cujo calor derreteu a cera das asas, fazendo-o cair no mar, onde se afogou. O local da sua queda ficou conhecido como mar Icário. 

Paléfato, um mitógrafo da Antiguidade Clássica, ficou conhecido sobretudo por uma obra (Histórias Incríveis) na qual se dedica a explicar racionalmente os mitos gregos, tentando converter o que era considerado fantástico ou sobrenatural em explicações verosímeis e naturais.

Sobre o mito de Ícaro, Paléfato disse que pai e filho escaparam num barco, que o vento lhes dava a sensação de voarem. O seu estilo era seco e desarmante. Menciono o seguinte trecho, para se perceber como este mitógrafo pretendia impor racionalidade aos mitos e explicá-los: “Diz-se que Dédalo fabricava esculturas que se moviam por si mesmas. Parece-me impossível que uma escultura se mova por si mesma. A verdade era a seguinte.

Os escultores e criadores de imagens daquela época faziam os pés unidos um ao outro e as mãos coladas ao corpo. Dédalo foi o primeiro que as representou com um pé à frente do outro. Por isso, as pessoas diziam: ‘Dédalo fez esta imagem que caminha, que não está parada’; assim como agora dizemos: ‘nesta pintura há uns homens que lutam’ e ‘uns cavalos que correm’ e ‘um barco açoitado por uma tempestade’. Assim, também diziam que ele fazia imagens que caminhavam.”

De facto, a explicação é verosímil, ainda que não tenha qualquer sentido racionalizar a mitologia desta maneira.

Voltando ao mito de Ícaro, encontramos nele, no meio da fantasia, elementos que nem sequer questionamos. Por exemplo, acreditava-se que quanto mais perto duma fonte de calor — o Sol, neste caso —, mais alta seria a temperatura.

O problema é que nem sempre as explicações estão correctas e determinadas ideias, sem questionamento poderão estar relativamente erradas. Cyrano de Bergerac acreditava que o Sol era frio: o calor que se sente junto ao fogo era apenas devido à impureza do material que, na Terra, lhe serve de combustão. No céu, o fogo — na pureza do sol — seria frio (era luz pura, sem matéria combustível). Cyrano dizia que isso se poderia verificar facilmente: quanto mais subimos uma montanha, ou seja, quanto mais perto do Sol, mais a temperatura diminui. Esta explicação está claramente errada, mas há uma subtileza: Ícaro, ao voar “mais perto do Sol”, experimentaria uma redução da temperatura e a cera não derreteria. Cyrano, ao mostrar que a temperatura desce quando se sobe uma montanha, chegaria à conclusão de que a queda de Ícaro não aconteceria. Porém, a sua teoria dum Sol frio estava errada. No mundo moderno, somos bombardeados por crenças deste tipo, que parecem fazer sentido, mas estão profundamente erradas, como em ambos os casos que serviram antes de exemplo. Haveria motivo para, em relação ao que se lê nas redes sociais, aplicar uma postura bastante mais céptica, mais próxima de Paléfato.

A certa altura, regressando de avião do Funchal, o meu filho comentou que estavam sessenta graus negativos no exterior. Eu, claro, aproveitei para lhe dizer que era porque o Sol é frio e que estando nós mais próximos dele, as temperaturas caem drasticamente.

Depois, claro, contei-lhe mais ou menos o mesmo que escrevi nesta crónica.

Escreve quinzenalmente no SAPO, à quarta-feira//Afonso Cruz escreve com o antigo acordo ortográfico


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