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Ser brasileiro não é detalhe, erra quem não percebe isso

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Texto analisa a importância de reconhecer a identidade brasileira.

Afirma que subestimar esse aspecto é um erro.

Não são apresentados dados, fontes ou contexto específico na matéria.

Matéria é composta por uma única frase de teor opinativo.

Existe um tipo muito específico de brasileiro que, ao atravessar a imigração de um aeroporto europeu, acredita ter atravessado também uma fronteira moral. Desce do avião com a convicção de que deixou para trás não apenas um território, mas um erro histórico. Em poucas semanas, adquire um sotaque improvisado, uma impaciência importada e uma capacidade curiosa de enxergar defeito em tudo que traz o cheiro do Brasil. É um deslumbramento apressado, quase juvenil — e profundamente revelador.

Porque não é sobre o Brasil. É sobre fragilidade.

Há alguns anos, uma das minhas filhas me fez uma pergunta direta: quantos países você já visitou? Não respondi de memória. Sentei, peguei papel e caneta e fiz o levantamento com método. Cinquenta e sete países. Depois, anotei quantas vezes havia retornado a cada um deles. A maioria, mais de quatro visitas. Seis, oito vezes. Esse número não diz respeito a turismo. Diz respeito à repetição. E repetição, quando se leva a sério, destrói ilusões.

Viajar muito não transforma ninguém em superior. Mas, se a viagem for honesta, impede simplificações infantis.

E é nesse ponto que muitos se perdem.

No imenso aeroporto Indira Gandhi, em Nova Délhi, entre telas luminosas e anúncios em série, ouvi nos alto-falantes uma voz que não precisava de tradução. Era Tom Jobim, e o que ecoava não era uma frase qualquer, mas um dos versos mais precisos já escritos sobre pertencimento:

Vejo o Rio de Janeiro

Estou morrendo de saudade”

Não houve mediação intelectual. Houve impacto. Fui atravessado por uma saudade física, imediata, quase indisciplinada. Ali, no meio de um dos aeroportos mais movimentados do mundo, precisei parar para recompor o olhar. Samba do Avião não é apenas uma canção. É um território emocional portátil. Carrega a bossa nova inteira dentro de si — essa arquitetura delicada de som e silêncio que o Brasil ofereceu ao mundo. Música não tem fronteiras. Tem sentimento. E sentimento, quando verdadeiro, ignora passaportes, ignora idiomas, ignora fronteiras físicas e simbólicas. A música atravessa aquilo que a geopolítica tenta dividir. A bossa nova, ali, não era só melodia. Era o Brasil inteiro condensado em poucos versos: mar, céu, ausência, desejo de retorno, delicadeza e uma elegância que só a cultura brasileira soube produzir daquela forma.

Nenhum ranking europeu prepara alguém para isso.

No Taj Mahal, o guia, ao saber que eu era brasileiro, não perguntou sobre inflação, corrupção ou desigualdade. Perguntou se eu conhecia Pelé. É simplificação? É. Mas também é sintoma. O Brasil que circula no mundo não é aquele que muitos brasileiros tentam vender quando querem parecer sofisticados. É outro. Mais direto. Mais humano.

Era 1998 e estava em Roma, no aeroporto Leonardo da Vinci, em Fiumicino, duas brasileiras conversavam na fila de embarque. Uma delas havia passado três meses e meio na cidade. Perguntada sobre a experiência, respondeu: Roma é maravilhosa, mas como Juiz de Fora não tem igual. Ri sozinho. Ri com aquele riso brasileiro que nasce antes da permissão. Tive que me conter. Porque há verdades que só cabem no humor. E porque só um brasileiro é capaz de colocar, na mesma frase, Roma e Juiz de Fora sem cometer blasfêmia alguma. Ao contrário: produzindo uma hierarquia afetiva que nenhum atlas explica. E me lembrei dos versos de Fernando Pessoa sobre o Rio de Minha Aldeia.

Em julho de 1997, no voo do Aeroporto Internacional do Galeão para Frankfurt, a caminho da famosa Feira do Livro de Frankfurt, viajei sem hotel. Ao meu lado, um alemão — Siegfried — puxou conversa. Em poucos minutos, ofereceu hospedagem em sua casa. Disse que vivia três meses por ano em Frankfurt e nove no Brasil, havia mais de uma década vivia entre a praia de Mosqueiro, na Grande Belém e sua Frankfurt. Siegfried não pediu currículo. Não exigiu prova. Confiou que o Brasil é pra viver e Alemanha pra trabalhar.

Quando chegamos à casa dele, a cena se impôs com uma simplicidade desconcertante: na janela da frente, a bandeira do Brasil. Não como decoração exótica, mas como presença. Sempre pensei nisso: a bandeira brasileira é uma bandeira feliz. Carrega cores que parecem ao mesmo tempo quentes e serenas, vibrantes sem agressividade. Não grita. Afirma. Aquela bandeira, ali, não representava geografia. Representava afeto. Representava uma forma de estar no mundo que não pede licença para existir. Verde, amarelo, azul e branco: poucas bandeiras conseguem reunir luz, calor, serenidade e impulso vital da maneira como a nossa reúne. Há bandeiras solenes, há bandeiras severas, há bandeiras históricas. A nossa, além de tudo isso, parece viva.

Mas o mundo não é feito apenas de encontros gentis.

Em Paris, em 1983, aprendi o que é xenofobia sem precisar de dicionário. Não como teoria, mas como prática cotidiana. O olhar que mede antes de ouvir. A distância que se instala antes da conversa. Ali, a Europa deixou de ser narrativa idealizada e passou a ser aquilo que de fato é: um lugar com qualidades evidentes — e limites igualmente evidentes.

Na Copa do Mundo de 1994, em Chicago, fui convidado por americanos para assistir aos jogos em suas casas, aquelas com jardim e uma fritadeira improvisada para hambúrgueres. Em poucos minutos, pediram que eu cantasse. Eu, que não canto — e sei disso —, cantei. Não por talento, mas porque, para eles, aquilo era o Brasil. E, naquele momento, eu entendi algo simples: o Brasil é reconhecido no mundo por aquilo que muitos brasileiros insistem em esconder. O estrangeiro, muitas vezes, identifica em nós uma alegria que o brasileiro deslumbrado faz questão de tratar como defeito, como se leveza fosse sinal de inferioridade cultural. Não é. Às vezes, é apenas saúde da alma.

Em Barcelona, diante de cinco mil estudantes, falei por quase duas horas sobre os povos indígenas, especialmente os ianomâmis, e sobre o saque histórico conduzido por portugueses e espanhóis de cinco séculos passados, colonização feita a ferro fogo e Bíblia. Não havia ali música. Não havia festa. Havia escuta. O Brasil ali era outro: denso, histórico, incontornável.

E então vêm os episódios que desmontam qualquer fantasia confortável.

Em Manhattan, coração de Nova Iorque, fui quase assaltado por um homem em situação de rua. Houve perseguição. Corrida. Respiração curta. Aquele mito elegante de que insegurança é exclusividade tropical se dissolveu em segundos. Segurança não é o forte em Nova Iorque. E convém dizer isso sem rodeio. Rio de Janeiro e São Paulo não estão sozinhas nesse mapa. O mundo desenvolvido gosta muito de exportar a ideia de que o perigo mora sempre no Sul, sempre nos trópicos, sempre na periferia do planeta. Não mora. Às vezes ele mora ao lado da vitrine mais cara, sob o arranha-céu mais fotografado, a poucos metros da loja de luxo e do restaurante estrelado.

No aeroporto dos Emirados Árabes Unidos, setembro de 1986, fui retirado do avião. Interrogado. Minha câmera — uma Nikon sólida, fiel — foi quebrada por um agente de segurança. A frase veio direta: seu passaporte diz que você é brasileiro. Se for, tudo bem. Se não for, pode ser um terrorista infiltrado. Pouco antes, naquele mesmo voo, eu havia assistido ao filme Top Gun, estrelado por Tom Cruise. Já tínhamos cruzado o espaço aéreo iraniano, em guerra com o Iraque. O mundo real não tem trilha sonora. E tampouco tem paciência para ingenuidade. Cinema é cinema. A geopolítica, quando se manifesta na vida de um passageiro comum, chega sem elegância, sem metáfora e sem pedido de desculpas.

Lembro-me de uma conversa que tive com Darcy Ribeiro no Senado Federal, em 1995. Foi uma conversa longa, mas foi definitiva. Ele me disse entre outras ótimas sacadas, e com aquela sua intensidade que não admitia meio-termo: “Washington, pra onde eu vou o Brasil vai junto. E eu sou daqueles que, quando escuto os primeiros versos do nosso hino nacional, me levanto, coloco uma espada na mão e corro para a frente de batalha”. Não era retórica. Era convicção. Era pertencimento levado ao limite da ação. Darcy não falava do Brasil como abstração, mas como organismo vivo, como ferida e promessa, como responsabilidade e chama. Aquilo ficou em mim. Darcy faz muita falta. Muita.

Depois de tudo isso — fronteiras, aeroportos, feiras do livro, convites, constrangimentos, excessos — ainda há quem insista em tratar o Brasil como um erro de origem. É curioso. Porque quase sempre são aqueles que menos o compreenderam que mais se apressam em descartá-lo. Há um certo exibicionismo nesse gesto. Uma necessidade de parecer cosmopolita à custa da própria raiz. Como se negar o Brasil fosse, em si, um sinal de sofisticação.

É apenas desconhecimento camuflado de opinião.

Há brasileiros que, mal aprendem a pedir um café em outra língua, já começam a falar do próprio país como quem comenta um acidente constrangedor da família. Tornam-se fiscais do pão de queijo, censores da espontaneidade alheia, inimigos da informalidade, como se a afetação importada lhes concedesse um passaporte moral superior. Trocam o espanto genuíno pelo esnobismo de catálogo. É uma caricatura triste: gente que confunde civilidade com frieza, organização com rigidez e distância emocional com evolução. No fundo, não se internacionalizaram; apenas se deslumbraram.

O Brasil não é um país fácil. Nunca foi. Mas é um país raro. Raro na capacidade de produzir vínculo imediato, de transformar estranhos em próximos, de fazer da linguagem não apenas comunicação, mas abrigo. Raro na forma como mistura dor e riso sem pedir autorização. Raro na potência de uma cultura que atravessa continentes sem precisar de legenda.

Há algo de profundamente equivocado — e, em certa medida, triste — em não perceber isso.

Amar o Brasil não é fechar os olhos para suas falhas. É abrir os olhos para a sua complexidade — e ainda assim reconhecer o privilégio de ter nascido dentro dela. Porque há países que funcionam melhor. Mas poucos vivem melhor. Pouquíssimos vibram melhor. Pouquíssimos sabem fazer da vida comum um acontecimento sensível, da conversa uma casa, do humor uma defesa, da música uma pátria portátil.

E aqui já não se trata de argumento. Trata-se de declaração.

Eu já atravessei continentes. Já fui acolhido, questionado, confundido e, em alguns momentos, rejeitado. Mas em nenhum lugar encontrei algo que substituísse o que o Brasil me deu: uma maneira inteira de sentir, de falar, de rir, de existir. Uma maneira que não cabe em manuais de civilidade nem em rankings internacionais.

Há brasileiros que passam a vida tentando caber em outro lugar.

Eu não. Eu carrego o Brasil como quem carrega uma certeza indiscutível, uma alegria indomável e uma memória que não aceita substituição. Porque, no fim, não é o Brasil que precisa ser explicado ao mundo.

É o mundo que ainda não entendeu a grandeza de ser brasileiro.


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