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Caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

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Toda romaria começa muito antes da estrada. Começa na promessa feita baixinho, na vela comprada com antecedência, no dinheiro juntado moeda a moeda e na fé que a gente carrega como carrega a própria infância. A viagem já existe dentro do romeiro antes que seus pés encontrem a poeira.

Em 1717, três pescadores puxaram das águas do Paraíba do Sul uma pequena imagem de terracota escurecida: primeiro o corpo, depois a cabeça. Desde então, o país caminha até ela. A devoção nasceu entre trabalhadores pobres e cresceu com a intimidade das coisas que o povo reconhece como suas.

Renato Teixeira traduziu essa liturgia em Romaria, eternizada por Elis Regina em 1977. A canção começa pela poeira, com um homem sozinho na estrada, filho de gente simples, consumido pela solidão. Ele chega à basílica de Aparecida sem saber rezar e oferece apenas o olhar. Nesse gesto desarmado reside a grandeza da fé.

Só então a letra se abre no refrão. O caipira diz quem é, lembra Pirapora e chama a padroeira pelo nome inteiro. Caipiras de todos os estados conhecem esse caminho de cor. A duas semanas de outro 12 de outubro, escrevo de Brasília ouvindo uma toada áspera, calculada e composta por autores conhecidos. E agora de rápido reconhecimento.

Em 2001, o bispo J. B. Carvalho, em cuja igreja o candidato da extrema direita seria batizado mais de duas décadas depois, publicou um livro que pregava destronar a padroeira e declarar ilegal o feriado de 12 de outubro. Em 24 de agosto, o próprio candidato prometeu “decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo”. Nesta semana, um vídeo de aliado completou o coro, afirmando que “o Brasil não pertence a essa senhora”.

As três vozes obedecem à mesma partitura. O romeiro leva vela, promessa e joelho ralado; essa marcha leva púlpito, decreto e tinta. A fé serve de instrumento para um projeto de poder.

Projetos dessa natureza precisam fabricar inimigos, e o alvo escolhido foi a santa escura que o povo pobre retirou do rio com as próprias mãos. Os ataques produziram indignação imediata. Bispos, padres e católicos em geral reagiram nos púlpitos e nas redes. Acuado, o candidato acusou a CNBB de patrocinar mentiras, sem apresentar provas. O Bispo respondeu: “não se combate uma mentira com outra mentira”.

A inquietação católica começou muito antes da campanha. Desde 2019, a cúpula da Igreja examina, em artigos, seminários e estudos sociológicos, aquilo que passou a chamar de teologia do domínio. Textos daquele ano registraram imagens religiosas despedaçadas no asfalto e terreiros incendiados, sinais de que a disputa teológica já avançava sobre corpos e territórios.

Um estudo de 2020 descreveu a pintura de Aparecida apagada na entrada da favela de Acari, no Rio, e substituída por dizeres contra a idolatria.

Em 2022, um documento levado à CNBB comparou o........

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