A armadilha da IA e as Humanidades
De um dia para o outro, a Inteligência Artificial Generativa (IAG) instalou-se nas universidades. Nos cursos de Humanidades e Ciências Sociais, é usada por estudantes para resumir textos que deixam de ser lidos na íntegra, para ordenar apontamentos, para produzir texto de trabalhos e apresentações, para seleccionar temas de trabalho, para responder a exames, é usada até para participações orais, nas quais se vê a incapacidade crescente dos estudantes em deixar de lado o telemóvel para exercícios de debate. É usada para fazer bibliografias, para pesquisar referências bibliográficas (tantas inventadas), para escrever teses. Nas Ciências Sociais e Humanas é já comum encontrar alunos recém-chegados a um curso superior que nunca leram um livro e, com a naturalização da IAG, não é certo que o façam durante o curso. Como se processa a aprendizagem das Humanidades na Universidade perante isto?
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Mais discreto, mas entranhado, é o uso que lhe dão docentes e investigadores. Alguns estão a recorrer à IAG para fornecer conteúdos para aulas, para elaborar PowerPoints, para fazer enunciados de testes e exames, para fazer avaliações. Num outro nível, a IAG é usada tanto nas Ciências Sociais e Humanidades como noutras áreas científicas para analisar e interpretar resultados de investigação ou fontes, para “ter ideias” para artigos ou capítulos de livros académicos, para os escrever integralmente ou em parte, para discutir com um chatbot as próprias produções académicas. Tirar notas é uma prática a cair em desuso e está a tornar-se frequente gravar reuniões, aulas, conversas, palestras (e a autorização para tal e para o fim a que se destina raramente é requisitada), para depois carregar a gravação para um modelo de IAG que a resume, edita, baralha e volta a dar. E é também usada para escrever projectos para candidaturas a financiamento.
Por IAG refiro-me a sistemas LLM (Large Language Models) com chatbots como o Claude, Gemini, ChatGPT, Grok, e não a tecnologias usadas já há muito para ordenação e análise de dados, por exemplo nas humanidades digitais, e que agora são também chamadas de IA, lançando confusão na discussão deste assunto. Um dos efeitos é a centralização de tarefas nos chatbots, para as quais havia desde há vários anos programas que não recorriam a IAG, como a correcção de gralhas e gramática, ou programas para fazer índices e bibliografia, que de resto funcionavam offline. Agora todas essas tarefas são pedidas ao ChatGPT, que não as faz da mesma maneira: reescreve, “melhora”, acrescenta ou escreve os textos de raiz, sempre online.
Emily M. Bender e Alex Hanna, no livro The AI Con (2025), explicam como têm sido apresentadas como Inteligência Artificial uma série de tecnologias de automação e processamento, várias muito úteis, com o propósito de se pôr no mesmo saco e nivelar tudo como parte de uma era tecnológica “inteligente” global, da qual ninguém pode (ou quer) escapar, impondo a sua aceitação, generalização e naturalização em cada vez mais instâncias do dia-a-dia. Vende-se a ideia de que a máquina faz as coisas por e como nós, pensa por e como nós, trabalha por e como nós e até melhor do que nós (logo, faz cursos superiores por nós), enquanto pilha mais do que nunca informação sobre cada um, não deixando nada fora da alçada da vigilância tecnológica. A ideia de que a IAG é uma........
