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Vamos “melhorar” o desporto?

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1. Em Las Vegas, entre 21 e 24 de Maio, têm lugar os Enhanced Games (Jogos), tendo como principal promotor o empresário australiano Aron D’Souza, acompanhado de outros investidores, onde a família de Donal Trump também marca presença. O que são estes “jogos melhorados”?

Com 50 atletas confirmados, em três modalidades desportivas (natação, atletismo e halterofilia), os “Jogos” apresentam-se um pouco ao estilo dos Jogos Olímpicos e mesmo como uma alternativa aos mesmos.

Onde radica, então, a diferença? No consumo de substâncias consideradas dopantes, perante o quadro definido pela Agência Mundial Antidopagem (AMA)e pelo movimento olímpico.

2. Eis algumas das frases feitas dos promotores dos “Jogos”: "Estamos a criar uma categoria de excelência humana"; "Um mundo onde as substâncias que melhoram o desempenho são utilizadas com segurança, abertamente e sob supervisão médica."; "Os Enhanced Games estão a renovar o modelo olímpico para o século XXI"; "Numa era de mudanças tecnológicas e científicas aceleradas, o mundo precisa de um evento desportivo que abrace o futuro — em particular os avanços na ciência médica".

Sem controlo antidopagem, os organizadores dizem assegurar exames médicos exaustivos, perfis de saúde individualizados e supervisão por conselhos científicos e éticos independentes. Os participantes, por seu turno, têm de revelar quais as substâncias que estão a consumir. No dizer da jornalista e colunista do The Guardian, Marina Hyde, algo como a velha política "Don't ask, don't tell". Em tom doce, os promotores referem que não pretendem superar recordes olímpicos nem desacreditar o desporto tradicional. Em vez disso, apresentam os “Jogos” como uma categoria paralela, semelhante à profissionalização do desporto no século XX. O objectivo, dizem, é explorar os limites do potencial humano, enquanto promovem um debate cultural alargado.

3. Estes “Jogos” têm merecido a mais viva oposição, desde o seu anunciar em Março de 2025, da AMA. Para Witold Bańka, presidente da AMA, estes “Jogos melhorados”, são “um projecto perigoso e irresponsável”, desde logo para a saúde e o bem-estar dos atletas, que é uma das prioridades da AMA. Daí ter apelado a todas as organizações antidopagem, mas também a todos os Governos, para que vivamente condenem estes “Jogos”. Por outro lado, advertiu atletas (e pessoal de apoio) que, caso participem nos Jogos, correm o risco de cometer violações das regras antidopagem. A AMA incentiva as organizações antidopagem a testar os atletas envolvidos antes, durante e após os “Jogos”, a fim de proteger a integridade do desporto. A AMA apelou aos governos e autoridades policiais para que avaliem se os atletas que admitam ter tomado substâncias para melhorar o desempenho – ou os médicos que fornecem ou administram essas substâncias – poderem estar a infringir a lei penal.

3. Num segmento mais jurídico, os promotores dos “Jogos” apresentaram uma queixa (acção antitrust) num tribunal federal americano contra a AMA, a World Aquatics e a USA Swimming, que não veio a ter sucesso.

4. O desporto, tal como o conhecemos na actualidade, procura sustentar-se em valores específicos como sejam, entre outros, o da verdade, igualdade e integridade das competições. Todavia, paralelamente, ele encontra-se sujeito ao “apetite” de poderosas e várias patologias (combinação de resultados, aproveitamento comercial sem limites, dopagem, etc.). No que respeita ao combate à dopagem, os seus fundamentos continuam a ser a obtenção da verdade e igualdade competitiva, mas também a protecção da saúde do atleta.

A verdade, assim nos parece, é que a proposta deste Admirável Mundo Novo, não passa de um mero empreendimento empresarial. Nas duras e impressivas palavras de Travis Tygart, CEO da US Anti-Doping Agency, os “Jogos Melhorados” são "um espectáculo de palhaços perigoso, não é desporto a sério".


© PÚBLICO