Serra da Freita: À escuta desse silêncio onde cabe tudo e transborda de nada
Estou junto à estação meteorológica de Arouca, na Serra da Freita, a 1110 metros de altitude. À minha frente, as cumeadas sucedem‑se em camadas azuis, uma atrás da outra, esbatendo‑se até ao limite do olhar. Arouca, lá em baixo, parece ilhada, recolhida no fundo do vale, cercada por um maciço que a protege.
É fim de dia. O céu, em vez de se entregar ao espetáculo fácil de um pôr do sol em tons de laranja, decidiu ser discreto, quase severo. Nuvens negras cobrem boa parte do ocaso. Em vez de fogo, um profundo suspiro. Ainda assim, aqui e ali, as nuvens deixam escapar um brilho morno, como que a sugerir o que há por detrás da cortina.
Estão sete graus. O vento da serra trata de os diminuir, transformando‑os numa lâmina fina que se infiltra por debaixo da roupa. Enregelado, resisto ao frio em busca de uma fotografia que cumpra os requisitos mínimos de fazer jus ao que observo, ainda que saiba que nada estará à altura. Clic. Hesito, enquadro, ajusto, novo clic. Analiso. Talvez esta…
Afasto a máquina fotográfica do rosto e pego no caderno para tirar notas. O abrigo do carro é tentador, mas mantenho-me ao relento. Desconforto em vez de anestesia. Acredito que assim o relato será mais verdadeiro, e que conseguirei transmitir melhor o que vejo, o que oiço, o que........
