A igualdade na ciência não tem código postal
Entre o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, assinalado a 11 de fevereiro, e o Dia Internacional da Mulher, que se celebra a 8 de março, há mais do que um intervalo no calendário. Há um espaço de reflexão. O que muda, de facto, entre as declarações de princípio e as decisões políticas?
Portugal tem feito progressos relevantes na participação feminina no ensino superior. As mulheres são maioria entre os estudantes universitários e têm presença significativa na formação científica, incluindo ao nível de mestrado e doutoramento. O desafio já não está apenas no acesso. Está na progressão, na liderança e, sobretudo, na sub-representação persistente em áreas como as engenharias e as tecnologias de informação.
Neste contexto, importa reconhecer iniciativas recentes. O Programa Pessoas 2030 (Programa Temático Demografia, Qualificações e Inclusão lançado pelo PT2030) lançou um aviso de concurso para apoio à criação de redes de promoção das raparigas e mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) e as tecnologias da informação e comunicação (TIC). O objetivo é claro: combater estereótipos de género, promover modelos de referência, reforçar a cooperação entre escolas, autarquias, instituições de ensino superior, centros de investigação e empresas, e incentivar vocações científicas desde cedo.
O diagnóstico está certo. A intervenção em rede faz sentido. A aposta em mentoria e contacto precoce com a ciência é fundamental.
Mas há um problema que não pode ser ignorado: apesar de se apresentar como uma medida nacional, o financiamento deste aviso está limitado a determinadas regiões do país.
A desigualdade de género na ciência não é um fenómeno regional. Não está circunscrita ao Norte, ao Centro ou ao Alentejo. Quando uma política pública de igualdade é territorialmente restrita sem uma explicação clara e estratégica, corre-se o risco de criar novas assimetrias enquanto se tenta corrigir outras.
A ciência não pode depender da geografia. Não pode depender do código postal onde se nasce, estuda ou trabalha. Se acreditamos que aumentar a participação feminina nas áreas STEM é uma prioridade estratégica para o desenvolvimento do país, e é, então essa prioridade deve ser assumida de forma coerente e verdadeiramente nacional.
Fragmentar políticas públicas reduz impacto e dispersa recursos. A promoção da igualdade nas áreas científicas exige uma estratégia integrada, metas claras e continuidade política. Não basta anunciar programas; é preciso garantir que o acesso às oportunidades é equitativo em todo o território.
Num momento em que tanto se fala de transição digital, inovação e competitividade, não podemos dar-nos ao luxo de mobilizar apenas parte do talento disponível. A sub-representação feminina nas áreas STEM não é apenas uma questão de justiça social. É uma questão económica, estratégica e de futuro.
Entre o 11 de fevereiro e o 8 de março, importa ir além da celebração simbólica. Importa perguntar se as políticas públicas estão à altura da ambição que proclamam.
Porque a ciência, tal como o talento, não tem código postal.
A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico
