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No átrio da guerra do século XXII?

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17.04.2026

1. Tecnologia no terreno

A Ucrânia tornou-se o primeiro país a capturar uma posição inimiga recorrendo exclusivamente a sistemas robotizados terrestres e drones. Pela primeira vez na história militar, uma posição fortificada foi tomada sem a presença física de tropas de infantaria, com máquinas a avançar coordenadas por inteligência artificial, a atravessar zonas minadas, a enfrentar fogo directo e a assegurar o controlo do terreno, enquanto um robô substituía o soldado tradicional nas áreas mais perigosas.

O episódio tem um alcance que ultrapassa a vitória táctica. As palavras de Zelensky. “o futuro está aqui, no campo de batalha, e a Ucrânia está a criá-lo”, resumem bem a dimensão simbólica deste momento. Não se trata apenas de um sucesso operacional, mas de uma transformação profunda na forma de fazer guerra. O combate deixa de assentar exclusivamente na presença humana e passa a integrar sistemas automatizados, plataformas autónomas e redes de comando à distância, abrindo caminho a uma guerra cada vez mais algorítmica e menos corporal.

2. Da ficção científica à realidade militar

Efectivamente, o que antes fazia parte de universos alternativos, da ficção científica e até dos imaginários distópicos, não só é agora real, como também produz resultados. Por isso, as palavras do presidente ucraniano não marcam apenas uma vitória tática. Também simbolizam uma transformação profunda na arte da guerra.

Esta operação militar inaugurou um novo paradigma: a desumanização física do combate, substituída por confrontos entre sistemas automatizados, algoritmos e máquinas autónomas.

A guerra deixa de ser um confronto direto entre homens e passa a ser um embate entre inteligências artificiais, onde a vulnerabilidade já não é física, antes digital, e em que a fraqueza reside no código, não no corpo.

As implicações desta mudança são vastas. Alteram o equilíbrio moral e político das decisões militares levantando dilemas éticos e estratégicos difíceis de ignorar. Se, por um lado, o recurso a robôs e drones pode reduzir as baixas entre os combatentes, por outro lado aumenta a distância entre quem decide e quem sofre as consequências da guerra, tornando mais opaca a responsabilidade sobre o uso da força. A questão medial passa a ser quem controla o algoritmo, quem valida o disparo e até que ponto a autonomia letal pode ser admitida sem comprometer o controlo humano. A fragilidade, como já referido, não reside apenas no corpo do soldado; reside também no código, nos sistemas de comunicação e na possibilidade de interferência eletrónica.

4. A aposta estratégica da Ucrânia

Perante os condicionalismos impostos pela agressão da invasão russa e a perda significativa do apoio americano com a administração Trump, apesar do apoio europeu, que foi sendo torpedeado por Viktor Orbán (e por Robert Fico), a Ucrânia tomou uma decisão que mudou a guerra.

Ao apostar de forma decisiva e consistente nestas tecnologias, a Ucrânia afirmou-se como pioneira de uma nova era bélica, nascida da necessidade, da escassez de recursos e da urgência de compensar assimetrias face à Rússia. O que começou por ser uma resposta tática evoluiu para um ecossistema militar ultrassofisticado, em que drones e plataformas robotizadas passaram a desempenhar um papel central na recolha de informação, no ataque e na tomada de posições. Esse avanço mostra que a guerra do século XXI já não é apenas terrestre, aérea ou marítima. Também é digital, remota, robótica e algorítmica e poderá definir a forma como os conflitos serão travados no futuro.

Os produtos feitos pelos ucranianos são controlados à distância, são capazes duma precisão extraordinária e são altamente eficazes no campo de batalha produzindo resultados que os russos não conseguem igualar. Ora, esta disrupção não mudou apenas os procedimentos e o modo como as operações são conduzidas no campo de batalha. Susteve as iniciativas de um inimigo superior.

5. Um novo paradigma bélico

Neste contexto, a guerra deixa de ser apenas uma prova de resistência humana e passa a ser também uma competição industrial, científica e tecnológica. A velocidade de adaptação, a capacidade de inovar sob pressão e a aptidão para transfigurar limitações em vantagens tornam-se factores decisivos. A Ucrânia demonstrou que, mesmo perante um adversário muito superior em meios convencionais, é possível redefinir a luta através da engenhosidade tecnológica e da articulação entre drones, robôs e comando tático flexível.

No entanto, este novo paradigma também exige prudência. Quanto maior for a dependência de sistemas automatizados, maior será a exposição a falhas técnicas, interferência eletrónica e escalada descontrolada. Além disso, a distância física entre operador e alvo pode normalizar o uso da força e facilitar decisões mais rápidas, mas nem sempre mais responsáveis. Por isso, a promessa de eficiência deve ser sempre lida à luz da necessidade de supervisão humana, de limites jurídicos claros e de uma reflexão ética séria sobre o significado, efeitos e consequências de delegar a guerra às máquinas.

Obviamente, para além das questões acimas referidas, há mais a considerar. Por exemplo, a crescente dependência de sistemas autónomos e controlados remotamente aponta para um futuro com menos soldados e mais máquinas em combate. Poderá isso indicar menos destruição e mortandade? Se tivermos em mente a selvajaria que aconteceu em Bucha, tecnologias que têm mais eficácia e precisão possibilitam um rácio maior de letalidade que poderá não se limitar a alvos militares.

As bombas eletromagnéticas e as armas de pulso eletromagnético foram desenvolvidas com o objetivo estratégico de minimizar danos físicos a edifícios, infraestruturas e reduzir baixas civis, focando-se especificamente na destruição de sistemas eletrónicos e elétricos. Será que o mesmo pode ser dito destas novas tecnologias? Deixo a pergunta propositadamente em aberto.

Não obstante, o impacto político deste salto tecnológico é evidente. A Ucrânia reforçou a sua credibilidade militar ao demonstrar capacidade de inovação em combate real, enquanto parceiros internacionais observam a eficácia destas soluções com interesse crescente. Ainda assim, a mesma tecnologia que salva-vidas e reduz exposição humana também pode aumentar a letalidade e a precisão contra alvos que nem sempre serão apenas militares, o que mantém em aberto a discussão sobre os limites éticos deste novo modelo de guerra.

A ilação é clara: a superioridade no campo de batalha dependerá cada vez menos do número de soldados e cada vez mais da capacidade de integrar sensores, software, comunicações seguras e sistemas autónomos num mesmo dispositivo operacional.

6. No átrio da guerra do século XXII?

Estamos a vivenciar o primeiro passo para a guerra do século XXII? Não tenho dúvidas em responder afirmativamente.

O que a Ucrânia protagonizou não é apenas uma inovação tática, mas um sinal de mudança estrutural na natureza da guerra. O campo de batalha tornou-se um espaço híbrido, onde o valor estratégico das máquinas rivaliza com o do combatente humano. E é precisamente essa passagem, do soldado à plataforma autónoma, do corpo ao código, da linha da frente ao algoritmo, que permite falar, com propriedade, de um primeiro vislumbre da guerra do século XXII.

A Ucrânia mudou definitivamente a forma de fazer guerra. E está a ser reconhecida por isso. Os contratos recentemente assinados com vários países árabes demonstra simultaneamente a credibilidade dos ucranianos e a confiança de terceiros nas suas capacidades.

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