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O básico

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11.08.2026

O presente texto responde ao artigo do Coronel José António Rodrigues do Carmo (Cel. JC), publicado a 8 de Agosto no Observador, na sequência do debate realizado na CNN Portugal a 3 de Agosto sobre os fluxos migratórios registados em Ceuta nos dias 30 e 31 de Julho.

O objectivo da minha resposta é esclarecer de forma sintética e fundamentada, cinco eixos à luz da literatura das Relações Internacionais (RI), da Ciência Política, da Psicologia Social e dos Estudos de Comunicação.

É o básico, aquilo a que me proponho.

1 Sobre a comparação de migrantes com “manadas”

Durante a sua intervenção televisiva, o Cel. JC recorreu por seis vezes – em três minutos e dois segundos, sem qualquer interrupção da minha parte – a analogias e comparações com “manadas”, “bisontes” e “gnus” para descrever o comportamento dos migrantes marroquinos em Ceuta, argumentando que as “multidões funcionam exactamente como as manadas de animais”, e sustentando que “esse funcionamento faz parte da psicologia humana”.

Vejamos o que foi dito à luz da literatura científica.

O ponto relevante não é discutir uma metáfora isolada, mas os efeitos discursivos da repetição. A literatura sobre desumanização mostra que a aproximação retórica sistemática de grupos humanos a categorias animais favorece processos de distanciamento moral e reduz a perceção da sua plena humanidade, contribuindo para formas selectivas de estigmatização individual e colectiva.

Na Ciência Política e nas RI, este tipo de linguagem articula-se com processos amplamente estudados de securitização, associando certas categorias de migrantes a potenciais riscos e ameaças à segurança, identidade e estabilidade nacionais, que passam a exigir tratamento excepcional fora da esfera normal da política.

Já no que diz respeito às evidências psicológicas que o Cel. JC aduz, convém esclarecer que a Psicologia Social contemporânea rejeita há muito a ideia de que as multidões operam como agregados irracionais através de um contágio instintivo, tal como defendido e popularizado pelos estudos de Le Bon em 1897.

Vários estudos demonstram que os comportamentos colectivos – como as migrações, “mesmo que inopinadas” – são orientados por pressões externas, identidades sociais,........

© Observador