Trabalho-sombra: quando o cliente trabalha sem salário
Chegamos ao hipermercado, pesamos a fruta, ensacamos o pão, passamos cada produto pelo leitor de códigos de barras, pagamos na caixa automática e saímos. Do princípio ao fim, não trocámos uma palavra com ninguém. Além disso, fizemos, de graça, o trabalho que antes cabia a um operador de caixa. Talvez nem tenhamos reparado, mas este ritual é cada vez mais frequente.
Há mais de uma década, escrevi no Observador sobre este tema. Desde então, o fenómeno não só se generalizou como adquiriu novas formas, impulsionado pela digitalização, pelas aplicações e pela progressiva retirada do atendimento humano.
De forma gradual e quase sem nos apercebermos, fomos assumindo cada vez mais tarefas no nosso dia a dia que anteriormente eram desempenhadas por profissionais. Há muito que se tornaram raros os funcionários das bombas de combustível que abasteciam os automóveis e somos nós, consumidores, que passámos a fazê-lo. Nas zonas de restauração dos centros comerciais, proliferam os quiosques automáticos de pedidos. Em todos estes casos, o consumidor deixa de ser apenas comprador para passar a desempenhar tarefas operacionais.
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