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Nardo, Manjericão e as carícias de Pasolini

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30.03.2025

Dilacerado numa tensão entre imanência e transcendência, presença e ausência, um corpo vulnerável precisa de uma outra pele para sobreviver; de uma presença material que o ajude a enfrentar o medo, a angústia, o vazio, a incerteza. Uma pele ferida ou ameaçada precisa de ser acariciada por uma mão, por uma voz, por um olhar.

Foi esta carícia que Pier Paolo Pasolini escolheu para pórtico das suas As Mil e Uma Noites, película com que concluiu a sua Trilogia da Vida. Realizou um filme por ano, mas na verdade é uma obra só concebida em três partes – Decameron, Os Contos de Canterbury e As Mil e Uma Noites. Pasolini serviu-se destes três livros, herdeiros da antiquíssima tradição oral, para criar uma arte, à semelhança do que pretendia Gramsci, que pudesse ser popular sem renunciar à beleza, à inteligência e à força. Uma arte que pudesse ser vista e compreendida por todos. Para fazê-lo, abandona o cinema ideológico dos anos anteriores e, de certa forma, regressa aos seus primeiros filmes: Accattone e Mamma Roma, películas em que denunciou a marginalização da juventude proletária dos bairros romanos.

A Trilogia constitui um canto de celebração da vida e da alegria do sexo – um sexo atrevido, livre, fonte de afecto e de cúmplice ingenuidade – e sintetiza todas as obsessões de Pasolini: a materialidade do corpo, o seu ódio à burguesia, a exaltação do sexo, a denúncia da hipocrisia, o fascínio pela morte, e o protesto, enfim, contra a crescente fealdade de tudo quanto nos rodeia, esta terrível uniformização ditada por uma sociedade desejosa de transformar o corpo numa mercadoria e de corromper e banalizar o desejo.

Nestas películas, o sexo pode ser pícaro e divertido, mas nunca é banal. Especialmente em As Mil e Uma Noites, onde o corpo humano se torna pura matéria encantada. Talvez seja isso o sexo: uma celebração da beleza do mundo. É muito curioso verificar como essas........

© Observador