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Memórias e bichos-da-seda

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30.05.2026

Durante um longo período, o tempo passara como um fio gasto, correndo entre os dedos sem quase deixar rasto, repetindo, dia após dia, a mesma sensação de intervalo por preencher, como se a trama da vida tivesse ficado suspensa no tear. Nada de espectacular acontecera, nenhuma revelação evidente, apenas uma sucessão de dias aparentemente iguais em que, sob a superfície, qualquer coisa se ia deslocando milimetricamente de lugar. De modo quase impercetível, foram‑se acumulando certos sinais: uma disponibilidade nova para escutar, uma atenção mais fina às pequenas variações de luz sobre a casca das coisas, um outro modo de habitar o silêncio sem o sentir imediatamente como ameaça. Era como se, sob o tecido aparentemente inerte das horas, um trabalho minucioso tivesse ido tecendo em segredo uma nova trama de sentido, ponto por ponto, até que o tecido do presente ganhasse consistência suficiente para se deixar tocar. Só retrospectivamente se pressente que aquilo que julgávamos estéril era já tempo de metamorfose em capulho, o resguardo necessário para que uma forma antiga pudesse encontrar, enfim, outra maneira de se oferecer ao mundo.

Há experiências que, quando se afastam, não se extinguem: recolhem‑se às camadas mais profundas da memória, como crisálidas fora de época, à espera de um clima propício. Nesse intervalo, aprendemos a viver de substituições e de ensaios, experimentando formas provisórias de sentido que ajudam a atravessar os dias, mas não coincidem com aquilo que, em segredo, continuamos a procurar. Aparentemente reconciliados com a perda, vamos erguendo arranjos frágeis – rotinas, justificações, pequenas narrativas – que dão alguma ordem ao que nos acontece, embora não cheguem a pacificar o subsolo inacabado daquilo que ficou em suspenso. Basta, porém, um gesto reencontrado, uma paisagem antiga vista sob outra luz, um fragmento de frase ouvido ao acaso para que a superfície dura do tempo rache de súbito e deixe ver, por........

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