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Afrodite, Lucrécio e a memória do corpo

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02.11.2025

No desejo, há um silêncio bem mais antigo do que a fala: no princípio era o Verbo; mas antes da palavra, era a boca; antes do amor, era a fome. E sempre que dois corpos se encontram, repetem o espanto primeiro da carne que reconhece a carne – não enquanto conhecimento, mas como perda. Os antigos sabiam-no. Deram-lhe nomes: quando Afrodite emergiu da espuma, nasceu não do ventre, mas do sexo decepado de um deus – Úrano castrado pelo seu filho. Da mutilação do pai, surgiu a beleza; da violência, a curva suave de um ombro, o tremor de uma pálpebra. Eros, diz-nos Hesíodo (Teogonia 188–201), nasceu de um golpe.

Desejar é, pois, sentir essa ferida a reabrir-se no corpo. O sexo nunca é apenas um gesto de vida: é a comemoração da morte. No instante do abraço, sente-se a fragilidade do tempo: o momento distende-se, suspende-se e depois desfaz-se. O prazer é uma pequena aniquilação. La petite mort, chamar-lhe-iam talvez os romanos, embora nunca o tivessem dito assim. Preferiam nomeá-lo com metáforas de refrega e rendição, embora ambígua seja a vitória, pois sucumbem vencedor e vencido. O leito é um campo de derrota.

Os gregos imaginavam o desejo como uma forma de loucura – divina insanidade, chamava-lhe Platão no Fedro. A alma, lembrando-se das formas perfeitas que outrora viu, estremece perante a beleza; deseja ascender, mas o corpo puxa-a para baixo. Assim começa o paradoxo: quanto mais se deseja, mais se fica dividido entre a ascensão e a queda. Ver o amado é recordar algo que não pode ser recuperado. Tocar o amado é perder o que se procurava.

O corpo, uma vez satisfeito, regressa a si – pesado, mudo, sozinho. E, nesse instante, o tempo recomeça; o relógio retoma a marcha; o corpo lembra-se de que vai morrer.

Ovídio sabia que o amor era metamorfose – a passagem contínua de forma em forma, de ferida em ferida: Dafne transforma-se em árvore para escapar a Apolo; Narciso, contemplando-se, dissolve-se na água; a escultura de Pigmalião desperta. O desejo transforma a........

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