Os jovens não esperam pelo futuro. Vêem-no e criam-no
As instituições gastam milhões de recursos a tentar decifrar o que o amanhã lhes reserva. Contratam consultores, encomendam relatórios e organizam cimeiras inteiras em torno do tema da vez. No passado mês de agosto, a resposta esteve à vista de todos: quase quinhentos jovens líderes de mais de 120 países congregaram-se em Genebra, na Suíça, na Cimeira Anual dos Global Shapers, a comunidade jovem do Fórum Económico Mundial. Em pauta estiveram a inteligência artificial, a ação climática, o empreendedorismo e a liderança.
Misturar gerações pode revelar-se mais fecundo do que deixar que uma suceda simplesmente à outra. Quando a experiência de quem já trilhou caminho se articula com a familiaridade dos mais novos perante a tecnologia e os novos comportamentos sociais, as decisões ganham perspetivas inéditas. A ansiedade, sobretudo a climática, pode deixar de ser mera paralisia para se converter em projetos concretos. E a inteligência artificial vive-se hoje, simultaneamente, como acelerador e ameaça: nunca foi tão fácil lançar uma ideia, mas também nunca a exposição à disrupção foi tão real para quem agora ingressa no mercado de trabalho.
A esta equação soma-se a incerteza económica, que está a redefinir o próprio sentido da ambição. A carreira em escada, feita de promoções previsíveis, cede progressivamente lugar a percursos menos lineares, onde propósito, flexibilidade e capacidade de aprendizagem pesam tanto ou mais do que o título.
O resultado mais interessante, contudo, não residiu em nenhum destes temas isoladamente. Estava na confirmação de uma ideia simples e, ainda assim, pouco praticada: ouvir os jovens não é uma questão de representação simbólica, mas de deteção precoce. Não estão apenas a ser afetados pelo futuro. Em muitos casos, vêem-no e criam-no em primeira mão.
Comunidades como rampa de crescimento e inovação
Não é só a WEF que aposta em comunidades, em particular de jovens. Subjaz a este modelo uma ideia mais ampla: as comunidades são, frequentemente, uma das principais rampas de crescimento e inovação de qualquer organização, seja comercial, social, cívica ou até política. Empresas, universidades, ONG e outras instituições investem no mesmo. Basta pensar nos inúmeros running clubs criados ou patrocinados por empresas, nas redes de antigos alunos das universidades, nas comunidades de utilizadores construídas pelas tecnológicas ou nas redes de empreendedorismo, voluntariado e liderança jovem promovidas por ONGs, fundações e organismos públicos. Todos estes fenómenos, aparentemente simples, revelam como a pertença e a confiança podem germinar antes de qualquer relação puramente transacional.
Os Global Shapers cumprem, em parte, essa função no ecossistema do Fórum Económico Mundial: alargam as discussões dos líderes mundiais, tomam as grandes prioridades globais e confrontam-nas com centenas de realidades locais. Não se trata apenas de ouvir jovens. Trata-se de construir uma........
