Abril antes de mim
Eu não vivi o 25 de abril de 1974. Não ouvi na rádio a senha que abriu caminho à madrugada, não senti o peso do silêncio a cair nem o alívio a levantar-se nas ruas. Não estive lá. Mas cresci rodeado por quem esteve. Bisavós, avós, pais e tios. E por isso herdei esse dia como se fosse também meu.
O meu avô falava pouco sobre Ultramar, mas quando falava a guerra soltava-se da sua boca, com palavras de rancor, perda, silêncios e morte. Onde a juventude do meu avô foi interrompida. Dizia-me ele que havia dois destinos: a cozinha ou o mato. A cozinha era a sobrevivência, o mato era incerteza. Entre panelas e tiros, entre rotinas forçadas e emboscadas invisíveis, desenhava-se uma guerra que, nas palavras dele, já estava perdida muito antes de muitos perceberem. Não por falta de coragem,........
