We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

João Lobo Antunes /premium

4 5 0
24.04.2019

1. Não sei se ele disse tudo — e será que alguém, alguma vez, diz tudo? — ainda não li o livro, (“Um Cirurgião em Construção”, Gradiva) – mas o que quero é fazer como toda a gente ali, na Ordem dos Médicos, naquela tarde: quero lembrá-lo. Libertando-o desta coisa terrível de em Portugal se morrer de vez, por isso o livro pode ficar para amanhã, ele não. Sim, valeu a pena a apresentação da obra, estiveram lá os que ele gostaria que estivessem, instituições, médicos, professores, colegas. Muitos amigos. O editor Guilherme Valente. O cirurgião Bicha Castelo que apresentou o livro. Cavaco claro. A família, irmãos, o Manel e o Miguel, sobrinhos, parentes. E as filhas. Ouvimos Margarida e Paula, direitas, dignas, decentes, uma quase imperceptível lágrima na voz, a falar com ele através de nós, ah esta “dinastia” Lobo Antunes… Ouviram-se as palavras certas, o João teria gostado, sim, do que — envaidecido – ouviu lá nas alturas desse céu onde se festejou a Ressureição. E no qual nunca saberemos – isto é, nunca saberemos bem — se ele acreditava ou não, embora um dia me tivesse dito diante de um gravador que “não tinha essa graça”e eu tivesse ficado na dúvida.

2. Desde sempre que João Lobo Antunes se interrogou sobre “o enigma moral do seu ofício”. Sei que foi assim. Conheci-o cedo, pude testemunhar umas vezes de perto ou muito perto, outras mais de longe, a seriedade intelectual, a inquietação, a tenacidade, com que sempre se interrogou sobre esse “enigma moral do seu oficio”.

Lembro-me que dizia — e a sua vida provou quase até ao limite de si mesmo a que ponto isso era verdade — que tinha um “entendimento sacerdotal da medicina”. Tinha. Talvez por isso e testemunhando isso, fui percebendo que estava diante de alguém que ia transbordando do seu próprio curriculo, por muito que ele por si só nos revelasse a excelência de um percurso. Fez do cruzamento da ciência com o humanismo uma forma de vida. E da busca permanente da ética ao serviço de corpos e almas, a chave para “o enigma moral do seu ofício”.

Sempre me interpelou. Admirei-o muito.

3. Recorde-se um pouco da sua história como aqui já o fiz há uns anos de forma brevíssima, num texto onde me inspirei, agora um pouco mais ampliado: a sua memória reclama-me o gesto de o recordar.

Nasceu na primavera de 1944 e lembrava um menino exemplar: nunca havia, nem na escola nem em casa, reparos a fazer-lhe. Eram seis irmãos, a casa era no meio das hortas de Benfica, um quase mundo á parte num ambiente familiar feito de uma silenciosa austeridade: na família sempre se achou natural o cumprir. Havia também um avó militar que muito influenciou o neto João, aprofundando a educação religiosa que os pais fizeram questão que os filhos recebessem. Aliás, a paróquia de Benfica honrava anualmente a procissão da Senhora da Saúde porque os cabeções de renda dos seis meninos de coro Lobo Antunes eram costurados pela avó e por isso alvo de distinção sempre renovada!

No segundo ano de medicina com 18 anos, obteve pela primeira vez a classificação de vinte valores. A euforia sem limite que então o embalou só voltou a senti-la mais uma única vez quando, muitos anos depois, em 1996, recebeu o Prémio Pessoa. Um, entre muitos prémios, como sabemos.

4. Formou-se com 19,47 valores — um caso na Faculdade de Medicina de Lisboa — mas não por acaso: durante cinco anos estudou ininterruptamente, debruçado sobre calhamaços e esqueletos. Como ele desabafou um dia “nascera com uma predisposição genética para um sentido........

© Observador