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A liturgia dos cumprimentos no país que não levanta a cabeça

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03.01.2026

Portugal é um país que sempre soube vestir bem a formalidade. Durante séculos, a nossa sociedade organizou-se em torno de títulos, hierarquias e protocolos que separavam quem mandava de quem obedecia. A monarquia, as ordens religiosas, a aristocracia e, mais tarde, o Estado Novo consolidaram uma cultura onde a deferência pública era tão importante como a competência. E este passado, ao contrário do que gostamos de acreditar, não ficou lá atrás. Continua a infiltrar-se nos gestos e nas palavras com que abrimos cerimónias, inaugurações, sessões académicas. Refiro-me à liturgia dos cumprimentos — aqueles minutos iniciais de “Excelentíssimos”, “Magníficos”, “Ilustríssimos” e outras variantes protocolares recitadas antes de qualquer discurso começar. Um ritual aparentemente inofensivo, quase automático, mas que diz mais sobre Portugal do que gostaríamos de admitir.

Durante séculos, o lugar social definiu a forma de tratamento, e a forma de tratamento consolidou o lugar social. Mesmo depois da República, e muito depois da aristocracia de sangue, manteve-se uma aristocracia de cargos. A cultura da honra transformou-se em cultura institucional. Quem fala deve, antes de tudo, mostrar que sabe onde está — e quem está acima de quem. O discurso........

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