#NoTempoDasSanjo
Esta história, com palco no Liceu Camões, remonta algures aos anos 60. Foi-me contada por um dos seus protagonistas, a quem chamarei GP. Resgato-a da memória e registo-a aqui como testemunho de um tempo que se vai perdendo e que, como quase sempre, se dilui por entre um turbilhão de incerteza.
Dizia-se à época e eventualmente com justificação, que o Liceu Camões era um dos mais emblemáticos estabelecimentos de ensino do país. Por ali passaram gerações inteiras e alguns reconhecerão, senão os contornos desta história, pelo menos a atmosfera densa e viva que impregnava aquele espaço.
Para a miudagem que despertava para a adolescência, aqueles corredores e salas eram muito mais do que um formal lugar de aprendizagem. Era o torno do oleiro. Era ali que se lançava o barro ainda mole do devir e, no convívio diário, nas pequenas rivalidades e camaradagem genuína recorrentemente temperada por travessuras próprias da idade, aquele local era como a banca do artífice onde o carácter se definia e ganhava consistência. Era ali que o intelecto despertava, que a personalidade ganhava contornos e os princípios, ainda frágeis, começavam a tomar forma. Por entre brincadeiras e cumplicidades ia-se adquirindo a solidez necessária para o futuro e tudo quanto mais lhes reservaria o porvir.
O Liceu Camões tinha fama de forjar personalidades fortes de homens e mulheres (estas, após 1975) que viriam mais tarde a ocupar lugares de relevo na sociedade portuguesa. Não é fácil discernir se tal abundância se devia à excelência do ensino, à exigência dos mestres, à austeridade ou à qualidade da matéria-prima que alimentava aquelas sucessivas fornadas. Talvez fosse a soma de tudo isso! O certo é que nomes como Marcello Caetano, Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, José Saramago, Baptista-Bastos, Luísa Costa Gomes, Miguel Sousa Tavares, Vasco Pulido Valente ou José Cutileiro, entre demasiados outros, são testemunho e registo de um tempo em que a escola pública era, e pasmem-se muitos, uma “olaria” do mérito.
Hoje, a comparação só parece possível com algumas instituições privadas, acessíveis apenas àqueles a que a vida foi particularmente generosa. Locais onde o “mérito” pode ser adquirido como uma panaceia de um qualquer boticário. Criámos escolas para elites protegidas, viveiros cuidadosamente vedados onde crescem jovens que raramente chegam a perceber que a bonança não se distribui de forma equitativa, nem responde pelos méritos que gostam de atribuir a si próprios. Nos seus pequenos universos, o sucesso parece natural, quase hereditário, desligado do esforço, da carência ou da circunstância. Alimentamos nas novas gerações fornadas encimadas por sonhos cor-de-rosa, discursos polidos e unicórnios conceptuais, onde o conflito é evitado, a fricção social suavizada e a realidade frequentemente substituída por narrativas fluidas e reconfortantes. Formamos líderes fracos e incompetentes, forjados na abundância, no aparente paradoxo de uma escolha excessiva e na liquidez dos valores. Muitos deles, dos por ali criados, talvez já tenham alcançado os corredores do poder e daí governem com políticas de conveniência, de grupo, embaladas por um politicamente correto e por um “wishful thinking” elegante, mas cada vez mais distante do povo real, aquele que tropeça, que falha, que luta, e que aprendeu a crescer em escolas públicas onde o mundo não existe almofadado nem protegido por filtros........
