Ventura vs. Cotrim na segunda volta: o desastre da direita
Em Portugal sempre existiu uma separação profunda entre os partidos de direita e os seus eleitores. Durante décadas, as cúpulas do PSD e do CDS tiveram como principal preocupação a conquista e manutenção do poder. Para esse fim, preocuparam-se mais em agradar a jornalistas e comentadores, bem como em garantir redes de clientela através de prebendas do Estado, do que em representar verdadeiramente os seus eleitores.
O resultado foi duplo. Por um lado, a ausência quase total de uma cultura política de direita: nada de liberdade económica, liberdade de educação ou defesa da família, para não melindrar os opinion makers. Por outro, a criação de extensas redes de clientela, assentes em cargos públicos e avenças, ao ponto de se tornar difícil distinguir partidos políticos de verdadeiras agências de emprego.
É, por isso, perfeitamente normal que o eleitorado de direita se tenha cansado. O resultado do Chega não surge do nada. A revolta contra a inoperância da direita tradicional é justa e compreensível, ainda que a resposta encontrada por muitos não o seja.
Neste contexto, é natural que, tendo o PSD e o CDS decidido apoiar Marques Mendes, muitos eleitores de direita se mostrem pouco dispostos a acompanhar essa escolha. O candidato social-democrata é o retrato fiel da direita das últimas décadas: opiniões tímidas, negócios sólidos. Perante uma candidatura assim, não surpreende que muitos se sintam tentados a votar em André Ventura ou em João Cotrim de Figueiredo, na esperança de agitar as águas.
Contudo, agitar as águas não é um fim em si mesmo. Não basta mudar a política da direita; é necessário que essa mudança seja para melhor. E não me parece que isso possa acontecer com nenhum destes dois candidatos.
André Ventura é um populista. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra, como ainda recentemente se viu na questão da greve geral. A única constante no seu discurso é o desejo de alcançar o........
