O jogo infinito
Devo avisar quem lê que não faço parte da administração americana ou dos conselheiros próximos do presidente russo. Nunca participei numa guerra, pilotei um avião ou defini uma estratégia militar. O que me coloca, mais ou menos, ao nível dos demais comentadores nacionais das várias peripécias bélicas que vão correndo pelo mundo. Daí ter pensado que poderia dar também um contributo de igual valia sem, no entanto, vos incomodar todos os dias com plausibilidades pueris.
Não há nada tão complicado para o cérebro humano como perceber interações. Isto tem uma razão física e uma biológica. A biológica é que o nosso cérebro, por razões que se prendem com a necessidade de comprimir a informação que nos rodeia, precisa que os objetos se comportem como independentes e não como corpos que interagem. A física é que não existem, a não ser em aproximações muito particulares, corpos que não interagem. Esta incompatibilidade funcional não nos afetava grandemente, permitindo-nos continuar a viver felizes e contentes, não tivéssemos nós evoluído dos primatas nossos antepassados. Mas evoluímos, herdando a mesma arquitetura cerebral e passando a nossa vida científica a tentar ultrapassar as nossas próprias limitações.
De entre as várias abordagens ao problema da interação surgiu algo designado por Teoria de Jogos, já do tempo do grande John von Neumann, sem grande utilidade no estudo dos objetos inanimados, mas adotada – pelo menos em termos teóricos – por aqueles que acham o ser humano racional e que as suas escolhas individuais influenciam........
