A escola como fronteira entre dois mundos
Durante oito anos, cerca de 50% dos meus alunos eram do “Bairro”, como eles próprios diziam.
Alguns tinham um histórico de retenções; outros eram os melhores alunos da turma. Na altura, os alunos com mais de 16 anos que ainda frequentavam o 9.º ano eram os mais desafiantes. A escola já lhes dizia pouco.
Um dia, um deles afirmou:
— Professora, eu ganho mais num dia do que a professora numa semana.
Respondi-lhe:
— Fulano, fico ofendida. Aqui eu ensino; no teu trabalho, pessoas podem morrer.
Esta frase, dita por um aluno, reflete desigualdade económica, ausência de mobilidade social, a ideia de que o risco compensa mais do que o esforço escolar e a crença de que a escola não garante futuro.
O tal “Bairro” era um bairro municipal no centro de Lisboa, onde vivem pessoas que trabalham,........
