Quem vai ao mar avia-se em terra
Quem vai ao mar avia-se em terra, diz o provérbio, e diz mais do que parece. Guarda uma verdade que a epopeia costuma esconder: as grandes viagens não se ganharam no mar. Ganharam-se antes, em terra, nos estaleiros, nos armazéns da Coroa, nas oficinas dos cosmógrafos, nas cartas corrigidas a cada regresso. O mar premiava quem chegava preparado e cobrava, sem apelo, a quem confiava na sorte.
Na quarta-feira, 30 de setembro, a Mercator Ocean International publicou em Toulouse o décimo relatório Copernicus sobre o estado do oceano, com contributos de 125 cientistas, apresentado como o aviso mais duro de sempre. Os números dispensam adjetivos. Em 2025, o oceano absorveu um recorde de 23 zettajoules de calor adicional, cerca de quarenta vezes a energia que a humanidade consumiu nesse ano. O nível médio do mar subiu 3,8 milímetros por ano entre 1999 e 2025, e 4,2 desde 2012. A água ficou cerca de 17 por cento mais ácida desde 1985. «O oceano está a transformar-se diante dos nossos olhos», resumiu Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator, e acrescentou o que interessa a quem governa: é nossa responsabilidade construir a capacidade permanente de antecipar essa transformação.
O mar que vem ter connosco
Durante cinco séculos, fomos nós que fomos ao mar. Agora é o mar que vem ter connosco. Segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, metade da costa arenosa baixa do continente, cerca de 425 dos 987 quilómetros, recuou entre 1958 e 2023, com quase catorze quilómetros quadrados de território perdidos e perto de 350 milhões de euros gastos em defesa costeira em quinze anos. As tempestades de janeiro e fevereiro deixaram danos em mais de quatro dezenas de concelhos e, em........
