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Vem cá, meu lindo?

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20.03.2026

Eu carrego um histórico de bullying. Na infância, fui considerado um monstrinho. Na adolescência, um monstro. Na maturidade, um monstrengo. O preconceito só ia crescendo comigo. 

Eu envelhecia junto da rejeição. 

Recebia uma porção de apelidos que me depreciavam: “placenta”, “Jason”, “Freddy Krueger”, “morcego”, “panqueca”, “Woody”. Pouco exercitei meu nome. 

Os colegas se aproximavam e perguntavam com compaixão: 

– Você sofreu um acidente?

Eu me sentia um acidente. Precisava explicar que era feio de nascença.

Não conseguia me descolar da sensação de estranheza, de impostor da simetria, de penetra no Éden, de aberração de circo. 

Tentava atravessar os corredores da escola totalmente curvado e com passo acelerado, para não ser notado. 

Eu festejava o silêncio. Sempre gostei do silêncio, que se mostrava uma trégua da ofensa.

Ao me casar com Beatriz, busquei esquecer o meu passado de agressão. 

Não esperava que ela despertasse o gatilho do medo. 

Criou o costume de me chamar de “lindo”.

Não há nenhum problema em ser abordado assim na intimidade, entre quatro paredes. Em casa, é carícia para os ouvidos. São os olhos dela. Eu entendo, e aceito. É fruto sumarento da linguagem.

A questão é que ela adotou a prática em público. No supermercado lotado. No restaurante cheio. No café barulhento. Na fila da padaria. Em qualquer lugar. 

Quando saíamos em casal, eu ficava muito envergonhado, absolutamente acuado.

– Vem cá, lindo? – ela gritava. 

Eu chegava perto dela, e dizia:

– Shiiiii. Fala baixo, todos estão escutando. Vão procurar quem é essa pessoa e não vão achar.

– Para de bobagem, lindo.

Ao adverti-la do exagero, ela repetia ainda mais. Virava redundância. Sua boca parecia uma metralhadora: “Lindo, lindo, lindo”. Ela me fuzilava com a beleza que enxergava em mim.

Eu não encontrava um jeito de dissuadi-la. 

Restava-me não reclamar. Deixar o calor do momento esfriar. Suportar os olhares incrédulos. Respirar devagar, rezando para que a timidez fosse logo embora. Minhas bochechas coravam, como as de alguém sob suspeita. Eu me paralisava dentro do trauma, essa zona enigmática em que a lembrança é maior do que a realidade, em que a presença da criança é mais forte do que a do adulto.

Dessa forma, minha esposa me possibilitou ser bonito pela primeira vez na vida. Ela me curou do mundo, e me transportou a um novo elo de confiança.

Como afirma C. S. Lewis: “Não temos uma alma, somos uma alma. Temos um corpo”.

Comecei a acreditar em Beatriz. Comecei a me arrumar. Comecei a me admirar no espelho. Comecei a ser vaidoso. Comecei a não tolerar mais desaforos. Comecei a não fazer mais piada de mim mesmo. Comecei a me cuidar. Comecei a gastar com roupas e sapatos. Comecei a não me dar de graça, depois a não me vender barato.

Comecei, de repente, a responder para ela, em voz alta, com orgulho, no meio da multidão:

– Sim, amor, você me chamou?

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