O armário do CDS
O Partido do Centro Democrático Social (CDS) tem um armário escondido na cave. Mais do que um armário, é um guarda-fatos antigo, de madeira castanha trazida das colónias, coberto por uma espessa camada de pó. Ao centro, tem um espelho alto e envelhecido que devolve reflexos do passado. As portas laterais são sóbrias, e a gaveta inferior sugere segredos domésticos. Numa das laterais, uma pequena placa de metal amarelecido onde ainda se lê: “Real Fábrica de Santa Comba Dão”.
Nuno Melo e Paulo Núncio estão diante dele em contemplação quase litúrgica. Vestem a indumentária oficial do CDS: camisa azul, calça em tons de bege, casaco de linhagem monárquica decadente e sapatos de vela castanhos. Melo dispensa as meias e aperta um terço entre as mãos. Núncio roda a pequena chave que abre uma das portas. Escapa um cheiro entre o bafio e a naftalina. Melo sente a sua virilidade dar discretos — mas inequívocos — sinais de vida.
Lá dentro, tudo está arrumado. Em cabides antigos pendem velhas urgências nacionais: o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a disciplina de Cidadania e a identidade de género. Cada cabide traz uma cruzada moral. Na gaveta inferior repousam cartões........
