As marcas que não se veem: abuso, silêncio e responsabilidade
Há notícias que chegam como um murro contido: não fazem barulho, mas pesam. E há crimes que deviam suspender o mundo, exigir atenção plena e uma reflexão à altura da sua gravidade, convocando uma resposta lúcida e firme. Porque ferem o que há de mais puro, desamparado e frágil: uma criança.
Entre os muitos horrores que atravessam a experiência humana, o abuso sexual de menores e os crimes de pornografia infantil estão entre os mais vis - não só pela brutalidade dos atos, mas porque são cometidos contra quem não tem meios de defesa, nem linguagem para nomear o que lhe aconteceu. São crimes que se alimentam da vulnerabilidade absoluta.
Abusar sexualmente de uma criança é roubar-lhe o corpo, a voz, a confiança, o tempo. É converter aquilo que deveria ser abrigo em ameaça, o que devia ser cuidado em violência, o que devia ser ternura em medo. É marcar, para sempre, alguém que estava só a começar. A pornografia infantil acrescenta outra crueldade: fixa a violência e torna-a repetível. É a perpetuação da mesma. Cada imagem é uma agressão reencenada; cada partilha é uma nova violação e o........
