Um bom propósito de ano novo é fazer um detox dos smartphones
Ano novo, vida nova! Momento perfeito para avaliar nosso desempenho e nosso crescimento no ano que passou, traçar novas rotas, estabelecer metas, firmar os bons propósitos, e... Não sejamos ingênuos. Seria uma tolice reunir forças e preparar uma lista de propósitos de Ano Novo, muito parecida com a do ano anterior, a qual não cumprimos, só para nos frustrarmos mais uma vez, fazermos piada e deixarmos tudo para trás antes que finde o mês de janeiro. Estamos perto do meio do mês. Você fez propósitos, à luz dos fogos e com a taça de espumante na mão? Já os descumpriu, por acaso? Ou ao menos sente reduzirem-se suas energias, drenadas pelo repuxo dos velhos hábitos, todo aquele ideal remodelado começa já a parecer distante, estúpido, pueril? Imagino que talvez você tenha estipulado algumas quantidades. Ir à academia tantas vezes, ler tantos livros, fazer tais ou quais aprimoramentos de trabalho; pode ter, generosamente, incluído na lista quantidades para seus familiares: fazer tal ou qual gesto pelo seu marido, ler tantas vezes para os filhos, fazer este ou aquele programa com eles. E por que, eu lhes pergunto, por que os nossos propósitos são tão frágeis? Porque somos arrastados rapidamente para a perda de tempo, para a rotina da preguiça, para a dispersão?
Penso que o problema da nossa dispersão, a agitação, a ansiedade generalizada da nossa geração, e mais ainda das gerações que vêm vindo, seja bastante grave, e bastante mais grave do que a cultura do meme pode supor. Às vezes rimos para não chorar, é verdade; mas talvez devêssemos mesmo chorar. Essa liquidez, essa fragilidade geral tem dois lados como uma moeda: a ansiedade, de quem precisa de mais, de muito, e a toda hora, e a procrastinação, de quem deixa para depois, de quem não consegue sustentar um esforço ou um propósito nem por 15 dias – e já tudo virou vapor outra vez. A essa doença do espírito os antigos talvez chamassem de acídia ou de tibieza, feitas as devidas adaptações, e a tibieza, segundo eles, é muito mais grave do que pensa o tíbio. As tecnologias e as redes sociais, e quase tudo o mais da cultura contemporânea, são o metrônomo que marca o compasso dessa ansiedade generalizada. Como escapar disso? – é o que queremos saber, é o que você talvez esteja se perguntando. Bem, eu tenho cá minha pequena sugestão. Em suma, devemos fazer propósitos fundamentais, básicos, mas qualitativos, que salvarão nossa sanidade e possibilitarão qualquer avanço quantitativo posterior. É este o tempo que vivemos, paciência: temos de fazer um grande esforço para permanecermos normais.
Não é de hoje. Vários autores já explicaram, com precisão, que a era moderna viveu sob o signo da ansiedade. Ela foi intensificada e complexificada pela sociedade urbanizada e industrial. Um número crescente de pessoas passou a sofrer de neuroses, medos difusos, irritabilidade crônica, distúrbios psíquicos e até enfermidades somáticas, como úlceras, coisas que não se viam antes. Talvez não estivessem simplesmente “esgotadas”, mas feridas em seu íntimo. Poucos podiam dizer, como dizia antes o camponês de outrora: “Quando trabalho, trabalho de verdade; quando paro, descanso”. É claro que o homem sempre teve problemas. Mas outrora os homens se inquietavam sobretudo com a alma; hoje, a preocupação dominante recai sobre o corpo. Segurança econômica, saúde, aparência física, prestígio social, riqueza e sexualidade tornaram-se os grandes polos de inquietação. Além do mais, essa ansiedade moderna distingue-se também por ser subjetiva. Já não se trata do medo de perigos objetivos e naturais – como feras, tempestades ou a fome –, mas de um temor vago, difuso, do que poderia acontecer caso certas circunstâncias se configurassem.
Uma das consequências mais visíveis do uso intensivo da internet e das novas redes sociais é a erosão progressiva da nossa capacidade de prestar atenção e de nos concentrar em algo por um período prolongado
Por isso, é tão difícil lidar com essa nova ansiedade: não adianta assegurar que não há perigo externo real, pois o perigo que se teme está dentro da própria pessoa e, por isso mesmo, é experimentado como intensamente real. A condição é agravada por um sentimento de impotência diante desse suposto inimigo interior. O ansioso percebe constantemente uma desproporção entre as forças de que dispõe e aquelas que julga necessárias para enfrentar a ameaça. Assim, torna-se semelhante a um peixe preso em uma rede ou a um pássaro enredado em armadilha: quanto mais se debate de modo desordenado, mais se aprisiona, multiplicando suas próprias angústias.
Mas, reparem, estou descrevendo uma ansiedade “moderna”. Falo da Revolução Industrial, das décadas subsequentes, do século 20, falo dos nossos anos 90 e de quando os computadores pessoais começaram a habitar as casas. E nos últimos 15 anos? Quando os smartphones........
