Contra a ansiedade ou o “burnout”, busque saúde e salvação
“Não, as coisas não vão bem lá em casa...” Ouçamos a voz de uma pessoa comum, de qualquer um de nós, ou de um dos nossos amigos e conhecidos.
“Pois é, meu chapa. Eu tenho me sentido extremamente cansado, exausto mesmo, de um cansaço que nem mesmo uma longa noite de sono é capaz de curar. Não importa quanto eu durma! E olha que já tem um tempo que eu venho caindo pelas tabelas, me recostando em qualquer canto, sempre com vontade de deitar e pronto a tirar um cochilo.”
E, embora algumas pessoas não sejam capazes de se expressar com muita precisão, se pudessem, diriam também algo como: “O que eu vivo é, na verdade, uma exaustão emocional profunda. Eu me sinto sempre julgada, perseguida, criticada. Sinto uma tristeza difusa, como se, em qualquer momento do dia, eu estivesse no lugar errado ou fazendo algo de errado. Então, para me defender, começo a tratar as pessoas e as minhas próprias tarefas, domésticas e profissionais, com um certo cinismo, descontando nelas uma vingança por ser tão pressionada. Afinal, no fim das contas, nada basta mesmo. Não me realizo mais nem sou eficaz no meu desempenho”.
Outras pessoas, homens ou mulheres, poderiam expressar-se assim: “Eu olho para a minha vida e parece que não consigo me encaixar nela. Parece que sou um personagem na peça errada, que essa vida não é ou não deveria ser minha: essa rotina, essa casa, esse emprego, essa esposa ou esse marido, esses filhos! De repente, eu me vejo aqui em meio a tudo isso, mas ontem mesmo eu... eu não sei como eu vim parar aqui”.
E também: “Estou sempre irritada. A pressão é muito grande, eu não aguento, não aguento não poder parar um segundo sequer. Meus filhos parecem estar sempre dificultando o andamento das coisas, não me obedecem, se dispersam, desfazem o que eu havia acabado de fazer... Eu sinto uma desconexão emocional completa, e isso me faz sentir sozinha, sem quem me ouça, sem quem me compreenda, sem quem me ajude – talvez eu devesse voltar para a terapia? talvez iniciar o tratamento com o remédio? –, e isso me leva às vezes até a pensar, meu Deus!, meu Deus!, que a minha vida não vale nada, que era deveria acabar logo. Eu não vejo mais nenhuma luz, nenhum caminho aberto para melhora, eu não tenho mais... esperança”.
O Brasil tornou-se um caso curiosíssimo de uma grande epidemia de burnout e ansiedade
O Brasil tornou-se um caso curiosíssimo de uma grande epidemia de burnout e ansiedade
Grave. Preocupante. E pensar que isso está acontecendo ao nosso redor, com pessoas que nós amamos, e que, na verdade, quero dizer, objetivamente, são repletas de bênçãos dos Céus, vivem uma vida materialmente confortável e estável... Não deveriam, em tese, estar sofrendo tanto. Ou pensar que isso esteja acontecendo conosco mesmos, e talvez estejamos demorando a nos dar conta do problema, ou a compreender sua anatomia.
Esta é, aliás, a primeira ilusão a ser desfeita, o primeiro engodo que precisa ser decifrado para que alguma coisa possa ser feita a essa situação. Admitir esse quadro, aceitar a sua existência, para assim podermos olhá-lo de frente, analisá-lo, buscar suas causas e seus remédios, este é o primeiríssimo passo. E isso exige driblar, muitas vezes, o próprio sentimento de culpa e de autocobrança excessiva que ele mesmo traz em seu bojo – e por isso é tantas vezes necessária a ajuda de um observador externo, de uma pessoa que nos ajude a enxergar, seja o cônjuge, uma amiga ou um profissional. Olhar de frente e admitir que uma tal situação se instaurou significa, muitas vezes, como eu disse, compreender que isso não é sinônimo de ingratidão.
“Eu não deveria me sentir assim, já que eu tenho um esposo maravilhoso, que é trabalhador e carinhoso comigo, e tão companheiro e compreensivo etc., e filhos lindos e perfeitos, saudáveis, inteligentes, e que levo uma vida confortável, nesta casa boa, comendo boa comida, numa cama quente próxima a um chuveiro quente, ao passo que tanta gente enfrenta tantas dificuldades maiores, e doenças, e a pobreza, e a solidão, e...”
Bem, pois então, esta é a primeira saudável constatação: este é o problema que você enfrenta, e você pode chamá-lo de “sua doença”, se preferir (não entro aqui em dificuldades profissionais desnecessárias, faço uma generalização). Dentro da sua circunstância, é isso o que você precisa enfrentar, resolver, deslindar, sanar. Diz o velho ditado que “cada um sabe onde seu calo aperta”. Isso não é ingratidão ou capricho com relação ao que há de bom em sua vida, ao contrário: é um modo objetivo de olhar para ela e de bem vivê-la. Ignorar o problema é fazê-lo perdurar mais no tempo – nada bom.
Ora, o Brasil tornou-se mesmo um caso curiosíssimo de uma grande epidemia de burnout e ansiedade. Segundo os órgãos de pesquisa, o Brasil é o país mais ansioso do mundo, o segundo no número de casos de burnout (perdemos para o Japão) e o quarto país mais estressado do mundo. Por........
