menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O Israel que sobra

19 0
30.09.2026

Quando David Ben-Gurion se levantou no Museu de Telavive, ao fim da tarde de 14 de maio de 1948, sabia que o Estado que acabava de proclamar teria de resolver uma contradição que nenhuma Constituição poderia apagar. Israel nascia para que os judeus nunca mais dependessem da benevolência de outros povos para sobreviver, mas nascia também com a ambição de ser uma democracia. Tinha de ser suficientemente judeu para cumprir a razão histórica da sua existência e suficientemente democrático para que essa identidade não transformasse em cidadãos menores aqueles que não eram judeus.

A Declaração de Independência prometia igualdade de direitos sociais e políticos, independentemente de religião, raça ou sexo. Não era uma nota de rodapé. Era parte da promessa fundadora. Passados 78 anos, talvez seja precisamente essa promessa que vai a votos a 27 de outubro.

É demasiado simples dizer que Israel vai escolher entre Benjamin Netanyahu e Gadi Eisenkot. Vai escolher entre diferentes interpretações daquilo que significa ser um Estado judeu depois do 7 de Outubro, depois de Gaza, depois da guerra com o Hezbollah, depois do confronto com o Irão e depois de uma transformação profunda da própria sociedade israelita. Pela primeira vez desde o massacre de 2023, os israelitas terão nas mãos um boletim de voto e poderão responder politicamente à pergunta que a guerra deixou por resolver: depois de demonstrar mais uma vez que consegue sobreviver, que país quer Israel ser?

Netanyahu compreendeu durante décadas uma característica essencial da sociedade israelita. Num país onde quase todas as famílias têm alguém nas Forças Armadas, onde a memória do Holocausto não pertence aos livros mas às famílias e onde uma viagem de automóvel de poucas horas atravessa praticamente todo o território nacional, segurança não é uma área da governação. É a condição anterior a todas as outras. O atual primeiro-ministro construiu grande parte da sua longevidade política apresentando-se como o homem que compreendia melhor essa vulnerabilidade.

O 7 de Outubro atingiu precisamente o centro dessa promessa. Cerca de 1200 pessoas foram mortas, comunidades inteiras foram devastadas e centenas de israelitas, levados para Gaza. Mais do que uma derrota militar, foi uma falência do contrato primordial entre o Estado e os seus cidadãos: nós existimos para que isto nunca mais aconteça. As notícias agora publicadas sobre alegados avisos anteriores ao ataque tornaram essa discussão ainda mais corrosiva. Netanyahu nega ter recebido esses alertas e contesta violentamente as acusações. Eisenkot promete uma comissão estatal de inquérito. A questão eleitoral deixa de ser apenas quem combate melhor os inimigos de Israel e passa também a ser quem responde politicamente pelo dia em que Israel não conseguiu proteger os seus.

Os israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor são os realizadores do documentário

Stefania D’Alessandro/WireImage

Culturas

Uma bomba chamada “NAZA”: o documentário que maravilhou Veneza e enfureceu Telavive chega esta semana a Portugal

Leia também

É por isso que Eisenkot merece ser levado mais a sério do que como simples anti-Netanyahu. Antigo chefe do Estado-Maior, membro do gabinete de guerra depois de 7 de Outubro, pai de um soldado morto em Gaza e pertencente à tradição securitária israelita, não propõe uma inversão pacifista da política externa. Aliás, considera que um Estado palestiniano deixou de ser, nas atuais circunstâncias, uma proposta politicamente relevante. A diferença está noutro........

© Expresso