A primeira volta das eleições legislativas francesas terminou com um empate técnico entre a coligação do Presidente Macron, a manta de retalhos da esquerda francesa e a Frente Nacional. Como já AQUI escrevi a propósito das últimas presidenciais francesas, a situação é preocupante e pode gerar um impasse terrível.

Os principais partidos desapareceram (UMP e PS) e o único partido verdadeiramente grande é a Frente Nacional. Isto é assustador. Se a coligação de Macron junta ex independentes e os “sobreviventes” dos mais diversos partidos de centro, moderados, que vieram dos “Republicanos” (ex UMP) e do Partido Socialista Francês, já a coligação de extrema-esquerda é uma verdadeira manta de retalhos, uma espécie de geringonça, mas só de radicais.

Em França fica a sensação que umas das únicas agendas que restam é o anti extrema-direita. É a única bandeira capaz de unir a esquerda radical que para evitar o seu desaparecimento e reagir aos piores resultados de sempre decidiu unir-se. Mas se isto é ainda mais assustador, pois revela que é uma manobra de sobrevivência e não de convicção (fez-me lembrar António Costa em 2015), também é verdade que ao unirem-se desta forma souberam colocar as divergências de lado para combater um inimigo comum.

Mas o mais preocupante é o cenário que pode resultar da segunda volta num cenário de disputa lugar a lugar entre dois ou três candidatos. Em algumas situações será entre candidatos de “Macron” e Mélechon, outras entre candidatos de Macron e Le Pen, mas também entre candidatos de Le Pen e Mélechon e algumas situações a disputa será entre candidatos dos três blocos. E se aqui tudo pode acontecer é também aí que se joga o debate político francês, sobre as “recomendações” dos partidos fora da disputa. Recorde-se que Mélenchon recomendou votar Macron na segunda volta das presidenciais contra Le Pen.

A situação em França até pode parecer extremamente simples para alguém que pense como eu, entre dois extremos a escolha é óbvia. Entre dois grupos de radicais e independentemente das suas propostas eu votaria de caras em alguém representante de Macron. Mas o pior que pode acontecer é haver uma vitória ou uma maioria adversa ao Presidente eleito. Isso já aconteceu no passado, já houve “cohabitation” mas nos saudosos tempos em que os principais partidos eram os dois antigos pilares da democracia francesa, a UMP e o PSF. Mas isso era noutros tempos e até era “normal”. É inimaginável um regime com o Presidente Macron e uma maioria parlamentar da senhora Le Pen ou do senhor Melanchon. Seria um governo condenado ao fracasso. Nem Melanchon nem Le Pen são gente de fiar.

A segunda volta das legislativas é decisiva tanto para o futuro de França como do resto dos Estados Membros da União Europeia. Uma crise política e económica em França afeta todo o continente e tem um efeito de contágio, ou de “antibiótico”, imprevisível.

França é um elemento fundamental e um pilar estratégico da União Europeia. O seu “irreformismo” e anos de políticas fracassadas criaram um cenário perfeito para o surgimento dos radicais em força, uma crise de valores e de descrença dos cidadãos nos partidos e nos seus representantes. Esta crise só não surgiu mais cedo porque Macron venceu as primeiras presidenciais e evitou uma tragédia maior, mas já venceu em cima desses escombros. Estas eleições são uma espécie de última oportunidade antes de primeira grande vitória dos radicais em França, sejam de esquerda ou de direita. Se os moderados liderados por Macron vencerem e não fizerem as reformas há tanto aguardadas podem ter a certeza que o próximo Presidente francês vai ser um qualquer radical.

QOSHE - França à beira do precipício - Duarte Marques
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França à beira do precipício

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14.06.2022

A primeira volta das eleições legislativas francesas terminou com um empate técnico entre a coligação do Presidente Macron, a manta de retalhos da esquerda francesa e a Frente Nacional. Como já AQUI escrevi a propósito das últimas presidenciais francesas, a situação é preocupante e pode gerar um impasse terrível.

Os principais partidos desapareceram (UMP e PS) e o único partido verdadeiramente grande é a Frente Nacional. Isto é assustador. Se a coligação de Macron junta ex independentes e os “sobreviventes” dos mais diversos partidos de centro, moderados, que vieram dos “Republicanos” (ex UMP) e do Partido Socialista Francês, já a coligação de extrema-esquerda é uma verdadeira manta de retalhos, uma espécie de geringonça, mas só de radicais.

Em França fica a sensação que umas das únicas agendas que restam é o anti extrema-direita. É a única bandeira capaz de unir a esquerda........

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