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Não é o que a esquerda pensa, é para quem fala

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24.04.2026

Escrevo em resposta a Daniel Oliveira, que, citando o meu artigo no Esquerda.net, argumentou que há uma direitização da política portuguesa, evidente até para os menos atentos, mas não há (ainda) uma direitização da sociedade, quer dizer, dos valores dos portugueses. Pelo contrário, temos até atitudes cada vez mais à esquerda em assuntos como o aborto, a imigração, a redistribuição da riqueza e a lei do trabalho, como mostram os vários dados apresentados por mim e pelo Daniel.

Perante a hegemonia da direita e da extrema-direita na política portuguesa, isto serve de pouco consolo, mas mostra que nem tudo está perdido para a esquerda, e que há espaço e base social para uma esquerda forte. No entanto, as atitudes não se convertem linearmente em votos: as pessoas não são unidimensionais, têm mundivisões frequentemente contraditórias e são movidas a votar em dados momentos por diferentes razões ou assuntos. Este espaço aberto, entre valores enraizados e a forma como se expressam (ou não) no voto, é o espaço da política. E é na disputa política que a direita tem sido mais forte nos últimos anos, não esquecendo, claro, o contributo dos algoritmos e do ambiente mediático.

Segundo Daniel Oliveira, a direita “conseguiu deslocar a agenda e a identidade. Conseguiu decidir sobre o que se fala (…), empurrando para fora dela as questões que mais diretamente determinam as condições de vida”. Tem razão. Por exemplo: o racismo é estrutural na sociedade portuguesa. Mas a narrativa de que as pessoas votam no Chega porque são racistas passa ao lado da questão – pode ter-se atitudes desta natureza e votar noutros partidos. A vitória do Chega foi tornar o racismo central na........

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