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A curiosidade mata o cancro

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Todas as manhãs percorro o corredor do Hospital de Santa Maria antes de chegar ao laboratório. É um percurso de poucos minutos, mas raramente é indiferente. Há macas e angústia, há famílias à espera, há rostos que carregam o peso de um diagnóstico. Passo por ali e lembro-me, invariavelmente, da sorte que tenho de não ser eu a estar do outro lado. E lembro-me, com igual clareza, da razão de fazer o que faço. Há doentes à espera. Há muito mais por fazer.

É com esse pensamento que entro todos os dias no laboratório do GIMM, o Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, em Lisboa. O meu trabalho foca-se no cancro da mama triplo-negativo; um dos subtipos mais agressivos desta doença e aquele para o qual existe, ainda hoje, um número muito reduzido de opções terapêuticas. Até há muito pouco tempo, a esmagadora maioria destas doentes não tinha acesso a nenhuma terapêutica específica, apenas quimioterapia agressiva; um tratamento que salva-vidas, mas cobra um preço alto. A perda de cabelo, a exaustão, o impacto na autoestima de mulheres que já carregam um diagnóstico devastador. Hoje existem algumas opções, mas de aplicabilidade muito restrita. O que estou a tentar fazer é aumentar essas opções; desenvolver fármacos mais precisos, que atuem sem destruir o que é saudável. Que um dia uma doente possa tratar o cancro sem perder também uma parte de si.

Para isso uso inteligência artificial; não por estar na moda, mas como ferramenta concreta que amplia a escala do que é possível fazer. O processo tradicional de desenvolvimento de um fármaco demora entre dez a quinze anos desde a descoberta até à aprovação clínica. A........

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