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Para quando o 25 de Abril das mulheres?

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24.04.2026

Há 52 anos, Portugal acordou livre. Os cravos nas espingardas, os tanques nas ruas, a voz de Grândola a rasgar a madrugada. Um povo que disse chega. Que a liberdade não se pede.

Celebramos isso todos os anos. Com desfiles, com discursos, com cravos vermelhos ao peito e a sensação reconfortante de que aquele foi o dia em que tudo mudou.

Para algumas pessoas, mudou.

Para as mulheres, o 25 de Abril ainda não chegou. Já ouvi isto ser chamado de exagero. Não é.

Há uma investigação da CNN publicada há dias que expôs uma rede global de homens que drogam as próprias esposas para as violar enquanto dormem. Trocam dicas. Doses. Técnicas. Partilham vídeos. Ensinam-se uns aos outros com a normalidade de quem partilha uma receita. Em Portugal, vinte e cinco mulheres foram assassinadas em 2025 em contexto de violência doméstica, o número mais alto em anos. Oitenta e dois casos por dia chegam à PSP e à GNR. Oitenta e dois. Só os que chegam. Os outros, ninguém sabe contar.

E o lugar onde estas mulheres têm mais medo não é a rua. É a própria cama.

Isto é o mundo em que vivemos em 2026. Cinquenta e dois anos depois dos cravos.

O que me perturba não é a violência em si. A violência existe desde sempre e eu sei disso melhor do que gostaria. O que me tira o sono é a direção. Os jovens da Geração Z, aqueles que cresceram com internet e com acesso a uma informação que gerações anteriores nem sonhavam ter, são mais conservadores nos valores de género do que os baby boomers. Um terço dos homens desta geração acredita que a mulher deve obediência ao marido. Não os avós. Os rapazes de vinte anos. A geração que devia ser diferente e que, em muitos aspectos, é. Excepto nisto.

Para onde é que isto foi?

A resposta fácil é o TikTok, é o Andrew Tate, é o algoritmo. E o algoritmo existe, alimenta o que já lá estava. Mas o problema é mais antigo do que qualquer plataforma.

O problema é o medo. Um medo muito concreto, muito velho e muito mal disfarçado.

Os homens têm medo das mulheres livres. Não todos, claro que não. Mas o medo existe e tem raízes fundas. O medo de perder o lugar. De que a igualdade signifique menos para eles. Durante séculos a arquitectura foi simples: o homem decide, a mulher obedece, e a isso chamaram ordem natural. Quando as mulheres começaram a recusar essa arquitectura, a estudar mais, a ganhar mais, a ocupar espaços que não lhes eram destinados, alguma coisa quebrou. E a resposta não foi sempre a adaptação. Foi muitas vezes a reacção. A violência. O controlo. A tentativa de repor pela força o que deixou de ser mantido pelo hábito.

É por isso que a violência doméstica não diminui quando as mulheres ficam mais independentes. Em muitos casos aumenta. A independência de uma mulher é lida, por quem precisa de a controlar, como uma ameaça existencial. Não é lógica. É medo a fingir que é outra coisa.

Então o que falta? Cinquenta anos de feminismo, de legislação, de movimentos e marchas e cartas abertas não chegaram. O que é que não estamos a fazer?

Falta a mudança que não se decreta. Que não tem artigo de lei nem cerimónia de assinatura. Que só acontece quando os rapazes crescem a ver os pais tratar as mães como iguais, quando as escolas ensinam que o consentimento é um direito e não um pormenor, quando os homens que assistem à violência de outros homens deixam de achar que não é com eles.

É lenta. É a mais lenta de todas. Faz-se em cada casa e em cada conversa e não tem data marcada nem discurso de inauguração e às vezes parece que não avança nada. Às vezes porque efectivamente não avança.

Cinquenta e dois anos depois do 25 de Abril, Portugal tem Constituição, tem Estado de direito, tem instituições. Tem também vinte e cinco mulheres mortas em 2025. Tem raparigas que aprendem mais cedo a segurar as chaves entre os dedos do que a confiar no espaço à sua volta. Tem mulheres que adormecem com medo do homem que está ao lado delas na cama.

A liberdade não é um estado. É um processo. E para as mulheres esse processo está longe de terminar.

O 25 de Abril do feminismo não tem data marcada. Não haverá tanques. Acontecerá, se acontecer, de forma silenciosa e distribuída, quando uma geração inteira crescer sem este peso.

Ainda não chegámos lá.

Grândola, Vila Morena. Terra da fraternidade.

Ainda estamos à espera da metade que falta.


© Expresso