“Os moletinhos e a alma de Braga: ...”
Aidentidade de uma cidade não se cristaliza apenas nos seus monumentos de pedra ou nas datas magnas da sua fundação; faz-se, sobretudo, através de processos lentos, acumulativos e muitas vezes discretos, que se infiltram no quotidiano e na memória coletiva. No domínio da alimentação, essa evidência torna-se particularmente clara: as especialidades culinárias que hoje identificamos como “tra- dicionais” raramente surgem de forma abrupta. Elas resultam, antes, da sedimentação de práticas, saberes e gostos que se transformam ao longo do tempo. É neste quadro de evolução constante que devem ser entendidos os moletinhos, um doce hoje indissociável da identidade bracarense e do ritual do Dia do Pai. O Rigor da História contra a Tentação do Mito Do ponto de vista historiográfico, importa estabelecer uma baliza temporal clara: os moletinhos afirmam-se como uma iguaria de referência em Braga entre o final do século XIX e o século XX. É fundamental resistir à tentação de lhes atribuir uma origem remota ou uma genealogia conventual direta, uma vez que não existem, até ao momento, fontes que permitam recuar a sua formulação concreta a períodos anteriores. No entanto, este rigor científico não empobrece a narrativa; pelo contrário, permite-nos observar como uma comunidade é capaz de construir e consolidar um........
