“Adelina Caravana: A mulher que fez...”
Há trajetórias de vida que se fundem de forma indissociável com a génese cultural de uma cidade, e há datas que encerram um simbolismo que a historiografia acaba por consagrar. Maria Adelina Fernandes Caravana faleceu a 8 de março de 1998. O facto de o seu falecimento ter ocorrido precisamente no Dia Internacional da Mulher não constitui, para Braga, uma mera efeméride fortuita: é um testemunho indelével da memória coletiva. É a confirmação de que o edifício cultural da cidade se ergueu sobre a resiliência e a clarividência de mulheres que desafiaram as estruturas vigentes, transmutando o que parecia estático num horizonte de progresso. A génese desta transformação estrutural remonta a 8 de outubro de 1958. Num Portugal de horizontes condicionados por um ensino artístico conservador e centralizado, Adelina Caravana inaugurou, numa sala cedida pelo seu pai — o Brigadeiro Caravana — no Campo Novo n.º 42, um projeto que viria a redefinir o paradigma da educação em Braga. Iniciado com apenas cinco alunos, o projeto transportava uma densidade intelectual invulgar: a introdução de métodos pedagógicos vanguardistas inspirados nas correntes de Helena Sá e Costa e do suíço Edgar Willems. Como sublinha J. Simões (s.d.), tratava-se de uma proposta pedagógica praticamente inédita no país, que privilegiava a audição e a receção sensorial em detrimento da mera técnica repetitiva, humanizando o processo de aprendizagem musical. A fundamentação doutrinária de Adelina Caravana estava já expressa com rigor na primeira ata do Conservatório Regional de Braga (1958). Ali se delineava........
