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Ana Paula, Milena e o desconforto de olhar para dentro

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Reality shows costumam ser tratados como entretenimento leve, mas operam, na prática, como arenas de exposição psíquica de alta voltagem. No BBB 26, isso se radicaliza. Em poucos dias, comprimem tensões sociais, afetos mal elaborados e jogos de poder que, fora dali, levariam anos para se manifestar. O público assiste, mas também participa ativamente: projeta, identifica, rejeita, julga. 

Nesse ambiente saturado de performance e cálculo, a presença de Ana Paula Renault rompe uma engrenagem previsível — e não por elevar o tom, mas por sustentar algo mais raro e mais incômodo: coerência.

E não se trata de um fenômeno restrito a nichos ou bolhas digitais. 

Segundo a emissora, o reality alcançou uma média diária de 26,3 milhões de espectadores, somando TV Globo, Multishow e plataformas digitais. Mais de 130 milhões de brasileiros passaram pela edição apenas na televisão, número que ultrapassa metade da população do país ao longo de seus dias de exibição — que, até esta segunda-feira, 20 de abril, já avançam para cerca de 100 dias no ar. Esses dados não apenas dimensionam o alcance do programa; expõem a escala do espelho social que ele impõe ao país. Não é mais entretenimento: é um laboratório público de comportamento.

Essa coerência não nasce do acaso. Ela se estrutura numa biografia marcada por rupturas e reconstruções que não permitem ingenuidade. Nascida em Belo Horizonte, inserida num contexto de classe média alta, com os marcadores visuais clássicos de privilégio — branca, loira, dentro do padrão corporal valorizado pela indústria estética — Ana Paula carrega no corpo um estereótipo social imediatamente reconhecível. 

Mas a vida deslocou essa leitura rasa. Aos 16 anos, perdeu a mãe em um acidente de carro. Foi criada pelo pai, 42 anos mais velho, numa convivência atravessada por afetos e distâncias geracionais que não se resolvem facilmente. Hoje, aos 44, essa travessia se traduz numa subjetividade que conhece a dor, mas se recusa a ser organizada por ela. 

Há fragilidade, mas não há colapso. Há firmeza, mas sem rigidez defensiva.

Convém registrar que esse olhar não nasce agora. No início dos anos 2000, eu fazia crítica diária de realities, telejornais, novelas e programas de variedades, abastecendo a coluna que mantinha no Observatório da Imprensa, então comandado pelo saudoso e competente Alberto Dines. A experiência não apenas treinou o olhar — tornou impossível aceitar a superfície como explicação suficiente. 

O que se vê ali, hoje, no BBB 26, não é novidade em essência; é amplificação em escala.

Dentro da casa, a reação a essa presença revela mais sobre o grupo do que sobre ela — e revela sem disfarce. Os adjetivos se repetem com insistência quase automática: “chata”, “mimimi”, “se acha superior”. Em momentos de tensão, o vocabulário degrada rapidamente para o campo da patologização: “louca”, “histérica”, “incompatível”. Não se trata de insultos casuais nem de destempero momentâneo. 

Trata-se de uma gramática histórica, profundamente enraizada. Mulheres que falam com clareza, que recusam a docilidade esperada, são deslocadas para o território da doença. É uma estratégia antiga: deslegitimar a palavra sem ter de enfrentá-la.

Aqui, a leitura psicanalítica exige precisão, não simplificação. Quando Jacques Lacan formula a ideia do “sujeito suposto saber”, descreve a posição ocupada por alguém a quem o grupo atribui um saber sobre si mesmo — sobre seus conflitos, seus desejos, suas contradições. Não é necessário que esse saber seja total; basta que seja percebido como tal. Ana Paula passa a ocupar esse lugar dentro da casa porque nomeia o que circula de forma difusa, organiza tensões em linguagem e devolve ao outro aquilo que ele tenta desesperadamente evitar.

Esse efeito não é neutro — é profundamente desestabilizador. Porque ser visto, nesse nível, não é confortável. É uma experiência que atravessa o narcisismo — essa construção precária que cada sujeito sustenta para manter uma imagem minimamente coerente de si. Quando alguém perfura essa imagem, quando aponta fissuras, o que emerge não é apenas discordância. Surge resistência. Surge rejeição. Surge, com frequência inquietante, agressividade.

É nesse ponto que a repetição dos ataques ganha densidade e sentido. “Louca”, “histérica”, “tem que amarrar”, “não dá pra conviver”. Essas expressões não são apenas insultos; são tentativas de reorganizar o campo simbólico em benefício de quem acusa. 

Ao patologizar Ana Paula, o grupo tenta retirar dela a legitimidade da palavra. Se ela é “louca”, então não precisa ser escutada. É um expediente antigo — e ainda perigosamente eficaz.

A psicanálise também ensina que o ódio raramente se dirige apenas ao outro enquanto diferença. Muitas vezes, ele incide sobre aquilo que o outro revela sem pedir licença. O incômodo não está na distância, mas na proximidade. Ana Paula funciona como um espelho. E espelhos incomodam quando mostram aquilo que se tenta ocultar a qualquer custo. Não se odeia apenas o que ela faz; odeia-se o que ela torna visível.

O mais relevante é que, mesmo sob pressão contínua, ela não se entrega à lógica reativa que domina o ambiente. Existe ali um intervalo entre o impacto e a resposta — e esse intervalo é decisivo. É o espaço da elaboração psíquica. Em vez de reagir de imediato, ela processa, organiza, devolve. Em ambientes de alta exposição emocional, esse tipo de funcionamento não apenas é raro; é quase intolerável para quem vive da resposta impulsiva.

Essa capacidade se torna ainda mais evidente quando se observa sua relação com Milena. Para compreender a densidade dessa relação, é necessário recusar a leitura superficial e olhar para a trajetória de quem está do outro lado. Milena tem 26 anos, é uma mulher negra, mineira de Itambacuri, atualmente residente em Teófilo Otoni. Trabalha como babá e recreadora de festas infantis, uma ocupação que revela muito sobre sua posição social e sobre as dinâmicas de cuidado que atravessam sua vida. 

E há um detalhe que não é secundário: Ana Paula é sempre referida como Ana Paula Renault; Milena, quase sempre, apenas como Milena ou “tia Milena”. O padrão de nomeação expõe, sem disfarce, o viés estrutural do olhar social.

A história dela não começa no conforto — e não permite romantizações. Dos sete meses aos sete anos de idade, viveu em um orfanato. Cresceu com a experiência concreta da ausência e da institucionalização. Tem uma irmã gêmea, com quem compartilha essa origem, e construiu uma infância marcada por restrições materiais que não se apagam. Relata nunca ter tido um bolo de aniversário. Começou a trabalhar aos 11 anos. Esses dados não são meramente informativos; são estruturantes. Eles organizam a forma como alguém se percebe no mundo e delimitam, muitas vezes de forma silenciosa, os espaços que acredita poder ocupar.

É nesse contexto que pequenos gestos deixam de ser pequenos. 

Um dia antes de um dos momentos mais simbólicos do programa, Milena havia dito, com uma franqueza desarmada, que não tinha coragem de entrar na piscina de biquíni. Sentia-se com sobrepeso, deslocada, exposta. Por isso, sempre que entrava em uma piscina, fazia-o de bermuda. O que se seguiu não foi apenas uma cena televisiva; foi um deslocamento simbólico: Milena, Ana Paula e Samira correram e pularam juntas na piscina, todas de biquíni — Milena ao centro, ladeada por duas mulheres loiras e magras.

Essa imagem não se esgota no gesto — ela reorganiza um campo simbólico inteiro. Ali, o corpo deixa de ser território de julgamento para se tornar espaço de experiência. Não há comparação explícita, mas há uma inversão silenciosa de hierarquias. Milena não entra sozinha. Ela entra sustentada por uma relação que não a diminui, mas a expande. E isso, do ponto de vista psíquico, é decisivo.

Quando Ana Paula diz a ela, com naturalidade firme, “você pode, sim”, não se trata de um incentivo banal. A frase, em sua aparente simplicidade, carrega uma operação psíquica precisa: desloca o olhar de Milena da limitação para a possibilidade. Não impõe, não conduz, não ocupa o lugar de quem sabe mais — apenas devolve ao outro aquilo que lhe foi negado reiteradamente: a autorização para existir sem pedir licença.

Há, nesse gesto mínimo, uma ética que não admite concessões. Porque ao dizer “você pode, sim”, Ana Paula não cria dependência nem estabelece tutela. Ao contrário, retira o peso do julgamento externo e reinscreve a decisão no campo da autonomia. É uma frase que não invade, mas sustenta; não define, mas abre. E, por isso mesmo, produz efeito real.

Mais do que as frases, importa a forma — e a forma aqui não é neutra. Não há imposição, não há espetáculo calculado. Há escuta. Há tempo. Há respeito ao ritmo do outro. Ao elogiar o cabelo de Milena ou ao incentivá-la a ocupar espaços antes interditados, Ana Paula atua como suporte. Não captura a narrativa; oferece base para que ela se desloque.

Esse posicionamento dialoga com um campo mais amplo e mais exigente. Sem recorrer a discursos prontos, ela sustenta valores que atravessam debates centrais: dignidade, igualdade, direito à existência plena. Ao reafirmar, em gestos e falas, que todos devem ter acesso a moradia, saúde, educação e espaço público, desloca essas ideias do plano abstrato para a prática concreta — onde elas realmente se testam.

Outro episódio reforça essa coerência: a recusa em usar um figurino que não correspondia à sua identidade. Não se tratava de estética, mas de posição. Vestir algo que fragiliza a própria imagem num ambiente de disputa não é detalhe — é perda de lugar. Ao dizer não, ela preserva a consistência entre corpo e discurso.

Em contraste, outras dinâmicas revelam o oposto com nitidez desconfortável. Ataques que recorrem a temas íntimos não são apenas agressões episódicas; são manifestações de conflitos não elaborados. 

O autoódio, quando não encontra linguagem, encontra alvo. E esse alvo costuma ser quem encarna aquilo que o sujeito recusa reconhecer em si. Sim, leitor, assim como devemos cuidar do amor-próprio, é imperativo não alimentar o ódio próprio — porque ele sempre encontra alguém para destruir fora.

É nesse ponto que as vozes da literatura e da filosofia ampliam — e aprofundam — a compreensão do que se passa diante dos olhos.  Clarice Lispector escreveu: “os sensíveis são simultaneamente mais infelizes e felizes que outros”. Não é contradição; é condição. Sentir mais amplia tanto a dor quanto a possibilidade de compreensão. E em outra afirmação ainda mais radical, ela confessa: “nascer me estragou a saúde”. A frase, à primeira leitura, soa paradoxal. Mas aponta para algo incontornável: existir é um exercício contínuo de exposição, vulnerabilidade e confronto com a própria consciência.

Fernando Pessoa escreveu: “o amor é a tentativa da alma de tocar o eterno através do outro”. Em um ambiente como o BBB, onde relações frequentemente se tornam instrumento, qualquer gesto que preserve o outro como sujeito — e não como meio — já constitui uma ruptura ética.

Vincent van Gogh afirmou: “o moinho já não existe; o vento continua, todavia”. Estruturas mudam, mas as forças humanas persistem. O cenário é outro; o conflito interno permanece.

Rubem Alves escreveu: “somos as coisas que moram dentro de nós”. A afirmação desloca a análise do exterior para o interior — onde, de fato, tudo se decide.

Dostoiévski afirmou: “não poderia te amar mais do que amo agora”. A frase aponta para a intensidade do presente, para a possibilidade de existir sem fragmentação permanente.

Johann Wolfgang von Goethe escreveu: “quem tem bastante em seu interior pouco precisa de fora”. Em um ambiente estruturado pela validação externa, essa autonomia interna não apenas altera o jogo — ela o expõe.

E Graciliano Ramos afirmou: “comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”. A intensidade não é fraqueza. É matéria-prima — desde que encontre forma.

Ana Paula não se impõe como exemplo — e talvez por isso incomode tanto. Ela impõe uma pergunta que não aceita fuga: o que em nós reage quando alguém se recusa a negociar a própria identidade? Talvez o desconforto não venha dela, mas do espelho que oferece sem suavizar arestas. E se, ao final, algo se desloca no olhar do leitor, é porque a cena ultrapassou o entretenimento e entrou no território da verdade incômoda. O que está em jogo ali não é um reality show — é a medida exata da nossa disposição, ainda escassa, de existir com integridade num ambiente que recompensa a concessão.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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