A Pérsia que continua caminhando dentro do povo
O que hoje se ergue nas ruas do Irã não é um súbito desejo de ruptura, tampouco uma inclinação para o caos. É o cansaço acumulado de uma vida que deixou de ser vida. A moeda se esfarela nas mãos, o trabalho já não compra dignidade, a palavra virou risco e o silêncio foi decretado virtude obrigatória.
Esperar tornou-se suspeito. Sonhar, delito. Ainda assim, o Irã permanece. Porque o Irã não começou com esta crise, nem terminará com ela.
Essa permanência não nasce da teimosia, mas da profundidade histórica. Antes de ser Estado, o Irã foi civilização. Chamou-se Pérsia quando o mundo ainda aprendia a organizar o poder e a nomear a justiça. Foi ali que Ciro, o Grande (c. 600 a.C.–530 a.C.), gravou em argila uma ideia revolucionária: povos distintos podiam coexistir com respeito, a fé não precisava de espada, governar não era esmagar. Nenhum regime apaga cinco milênios de memória.
Pode desligar a internet, mas não desliga a história. Pode calar vozes, mas não silencia a poesia.
É justamente na poesia que a identidade persa aprendeu a se proteger. Ferdowsi (c. 940–1020), ao escrever o Shahnameh, salvou a língua quando tudo conspirava para sua dissolução. Rumi (1207–1273) deslocou o conflito do campo da força para o da consciência ao lembrar que, além das ideias de certo e errado, existe um campo onde a humanidade ainda pode se encontrar. Hafiz (1315–1390), com sua lucidez embriagada, ensinou que o poder teme mais um verso verdadeiro do que um exército........
