Venezuela é a repetição histórica das estruturas autoritárias
Quando Donald Trump reconheceu Juan Guaidó como “presidente legítimo” da Venezuela, em 2019, o gesto foi apresentado como uma defesa da democracia. No entanto, a história – e a literatura – mostram que esse tipo de intervenção não é novidade. Trata-se de uma estrutura autoritária recorrente, que atravessa séculos sob diferentes discursos: civilização, ordem, liberdade, democracia.
A literatura política e ficcional registra com precisão esse mecanismo, que poder que se arroga ao direito de decidir, de fora, quem deve governar um povo?
Napoleão e a soberania sequestrada
Um dos paralelos históricos mais evidentes está na invasão napoleônica da Espanha, em 1808. Napoleão Bonaparte declarou o rei Fernando VII incapaz de governar, forçou sua abdicação e nomeou seu próprio irmão, José Bonaparte, como rei da Espanha. O argumento era familiar, havia uma incapacidade do governante local e a suposta necessidade de “salvar” o país.
Francisco de Goya, em Os Desastres da Guerra (1810 – 1820), registrou em gravuras o que a retórica iluminista de Napoleão produziu na prática: violência, fome, corpos mutilados e uma população submetida à ocupação estrangeira. A obra mostra que quando a soberania é substituída por tutela externa, a barbárie costuma vir junto.
Shakespeare e a moral do golpe
Em Júlio César (1599), William Shakespeare desmonta a lógica clássica do autoritarismo disfarçado de virtude. Brutus e os conspiradores assassinam César não por ambição declarada, mas........
