O Roblox, o Felca e o Motim das Crianças
O que acontece quando o "quintal" simbólico de uma geração inteira sofre uma intervenção adulta? Nos últimos dias, o Roblox - plataforma que reúne milhões de mundos virtuais criados por usuários - tornou-se palco de um fenômeno pouco comum: crianças entre 8 e 12 anos organizaram protestos virtuais contra a restrição do uso do chat para menores de 13 anos. Avatares ocuparam ruas digitais, empunharam cartazes, parodiaram manifestações históricas e direcionaram ameaças a figuras públicas, com erros ortográficos que revelavam, sem disfarces, a pouca idade de seus autores.
A mudança, anunciada pela empresa no início de janeiro, ampliou a verificação de idade por reconhecimento facial e passou a limitar a comunicação entre usuários de faixas etárias diferentes. A medida faz parte de um pacote de segurança adotado após pressões judiciais e denúncias de falhas na proteção de crianças. Ainda assim, para parte do público infantil, a decisão foi vivida como um confisco de direitos.
O Roblox não é apenas um jogo, para a criança ele é um ambiente social - uma réplica do mundo social adulto. Um bairro digital onde crianças não apenas jogam, mas habitam, negociam, criam, acumulam status e constroem vínculos. Diferentemente de plataformas mais lineares, ali a experiência se aproxima de um simulacro da vida adulta: dirigir carros, ter casas, administrar recursos e circular livremente. Trata-se de uma forma de socialização precoce que, embora invisível para muitos adultos, é central na constituição subjetiva das infâncias contemporâneas.
Quando o chat - principal ferramenta de interação com o Outro - é restringido, o impacto não é apenas funcional. Há uma perda simbólica. Para essas crianças, o bloqueio não representa apenas uma norma de segurança, mas uma ruptura no laço social. A reação desproporcional, incluindo ameaças dirigidas ao influenciador Felca, acusado por elas de ser o........
