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Por que não haverá paz duradoura no Irã?

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O conflito em torno do Irã não é sobre centrífugas ou mísseis. Trata-se da disputa pelo desenho da ordem eurasiática e pelo comando dos corredores que sustentam o maior mercado do planeta. Entre a integração continental promovida pelas Rotas da Seda e a reorganização estratégica dos fluxos sob eixo israelense, define-se a arquitetura do poder no século XXI.

Não haverá paz duradoura no Irã porque o conflito que o envolve não é, em sua essência, nuclear nem ideológico. O programa atômico funciona como superfície visível de uma disputa mais profunda. O núcleo real é geoeconômico e diz respeito ao controle dos fluxos que estruturam a Eurásia, hoje o principal eixo de circulação de energia, mercadorias e conectividade do planeta. No século XXI, poder não se mede apenas por território ou capacidade militar, mas pela capacidade de organizar corredores estratégicos e influenciar gargalos logísticos. O Irã ocupa posição decisiva nessa arquitetura. Sua estabilização plena não significaria apenas redução de tensões regionais, mas a consolidação de um elo central na integração continental asiática. É por isso que qualquer promessa de pacificação precisa ser analisada com rigor estrutural. O problema não é a existência de centrífugas, mas a possibilidade de reorganização dos fluxos globais.

A disputa que envolve o Irã precisa ser compreendida dentro da reorganização contemporânea do poder por meio da infraestrutura. A integração eurasiática promovida pelas Rotas da Seda aposta na multiplicação de corredores terrestres e marítimos, na diversificação de rotas energéticas e na construção de redes logísticas capazes de reduzir vulnerabilidades estratégicas. Trata-se de um modelo baseado em capilaridade e redundância, no qual a força está na dispersão dos fluxos. Em contraste, o corredor alternativo que conecta Índia, Golfo e Mediterrâneo sob centralidade israelense opera por concentração estratégica, buscando organizar os fluxos em um eixo politicamente alinhado ao Norte global. Não é apenas uma diferença técnica de engenharia logística, mas um confronto entre dois arranjos de poder. Um modelo distribui interdependência; o outro consolida pontos de controle. A posição do Irã determina qual dessas arquiteturas pode se consolidar no coração da Eurásia.

O Irã é um nó estratégico irremovível porque sua geografia conecta o Golfo Pérsico ao Mar Cáspio, aproxima a Ásia Central das rotas que alcançam o Mediterrâneo e influencia diretamente a segurança energética que sustenta o dinamismo industrial asiático. Um Irã normalizado, com acesso pleno a financiamento, tecnologia e comércio, não apenas amplia sua autonomia, mas viabiliza corredores que encurtam distâncias, reduzem custos logísticos e aumentam previsibilidade para investimentos de longo prazo. Isso fortalece a integração continental e diminui a dependência de rotas sob capacidade de interdição ocidental. A questão decisiva é simples e material. Um Irã estabilizado deixa de ser gargalo inseguro e passa a ser eixo de passagem, alterando a correlação de forças sobre energia, comércio e conectividade eurasiática. É por isso que sua estabilidade não é tratada como fato desejável por todos os atores, mas como variável que redistribui poder.

Nesse contexto, a instabilidade deixa de ser consequência e passa a ser instrumento. Sanções prolongadas, restrições financeiras, pressão diplomática e ciclos recorrentes de tensão produzem efeitos materiais precisos. Elevam risco, encarecem crédito, afastam capital de infraestrutura e transformam qualquer corredor estratégico em aposta incerta. Projetos ferroviários, energéticos e digitais exigem previsibilidade e horizonte de longo prazo. Um país permanentemente sob ameaça não consolida sua posição como hub confiável. Ao contrário, torna-se ponto de risco em cadeias globais que dependem de estabilidade contínua. Assim, mesmo quando há negociações ou acordos parciais, a lógica estrutural permanece. Reduz-se a intensidade do confronto para administrar custos imediatos, mas preserva-se a pressão que impede integração plena. A tensão controlada cumpre função geopolítica clara: bloquear a consolidação de um eixo continental autônomo no coração da Eurásia.

A paz duradoura no Irã exigiria uma transformação que ultrapassa acordos técnicos ou compromissos diplomáticos. Exigiria o levantamento estrutural das sanções, a reintegração financeira plena e a aceitação de que o país se consolide como eixo central na integração eurasiática. Isso implicaria reduzir a capacidade de influência sobre rotas energéticas, preços estratégicos e corredores logísticos que atravessam o continente. Em termos objetivos, significaria admitir uma redistribuição do poder sobre os fluxos que definem a economia do século XXI. Hegemonias não operam por concessão voluntária quando sua alavancagem estrutural está em jogo. Enquanto o Irã permanecer peça-chave na arquitetura continental, sua estabilização plena representará perda relativa de controle para quem hoje regula gargalos e acessos. Por isso, qualquer distensão será limitada e reversível. A paz real exigiria abdicar do controle dos fluxos. E a história demonstra que hegemonias resistem antes de ceder.

Artigo publicado originalmente em

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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