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Lula e o ano da verdade

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06.01.2026

O sistema internacional entrou em uma fase que já não pode ser descrita como crise passageira, transição controlada ou simples rearranjo de poder. O que se observa, com crescente nitidez, é o colapso do mecanismo que por décadas sustentou a ordem global: o consenso. Quando o consenso deixa de ser possível, a hegemonia não desaparece. Ela muda de método. Em vez de persuadir, passa a coagir. Em vez de integrar, passa a punir. Em vez de estabilizar, passa a administrar o caos.

É esse deslocamento — do consenso para a coerção — que define o momento histórico atual. E é a partir dele que todos os desafios do Brasil em 2026 precisam ser compreendidos.

Durante a fase de hegemonia estabilizada, as regras internacionais funcionavam porque eram úteis à maioria dos atores relevantes, ou ao menos toleráveis. Tratados, organismos multilaterais, normas jurídicas e arranjos diplomáticos operavam como amortecedores de conflito. O custo de violar as regras era maior do que o custo de cumpri-las. Esse equilíbrio começou a ruir quando a capacidade de liderar pelo exemplo foi substituída pela necessidade de impor pela força.

Hoje, o que se vê não é o desaparecimento das regras, mas a sua aplicação seletiva. O direito internacional não é revogado; ele é relativizado. A legalidade não é negada; ela é reinterpretada conforme a conveniência do poder. A exceção deixa de ser exceção e passa a funcionar como método recorrente de governo global. É nesse terreno instável que a política internacional passa a operar.

A captura desse movimento exige atenção a um ponto central: a coerção contemporânea não se apresenta, na maioria das vezes, como guerra declarada. Ela se manifesta por meio de sanções econômicas, bloqueios financeiros, isolamento diplomático, operações jurídicas extraterritoriais, intervenções “cirúrgicas”, pressões informacionais e enquadramentos morais. A força é exercida, mas raramente nomeada como tal. O objetivo não é apenas derrotar adversários, mas produzir exemplos — demonstrar o custo da dissidência e disciplinar o sistema pela via do medo.

Nesse contexto, a violação das regras não é um desvio. É um teste. Cada ação excepcional mede a capacidade de reação do sistema, o grau de tolerância dos demais atores e o risco real de retaliação. Quando a resposta é fraca ou fragmentada, a exceção se consolida. Quando a reação é forte e coordenada, o avanço é contido. O mundo atual é, essencialmente, um laboratório contínuo de testes de limite.

É por isso que determinados episódios recentes não podem ser lidos como eventos isolados ou crises regionais. Eles são ensaios. São demonstrações de força política, jurídica e simbólica destinadas a redefinir o que é aceitável na prática internacional. O precedente, mais do que o resultado imediato, é o verdadeiro objetivo. Uma vez criado, ele passa a existir como possibilidade permanente, pronto para ser reativado em outros contextos, contra outros atores.

A erosão do consenso também altera profundamente a função dos organismos multilaterais. Instituições que deveriam operar como instâncias de mediação passam a funcionar como arenas de disputa narrativa. Resoluções são bloqueadas, princípios são invocados seletivamente, e o vocabulário jurídico é instrumentalizado para legitimar ações que, em outro contexto histórico, seriam consideradas inaceitáveis. O multilateralismo não desaparece, mas é esvaziado de sua função estabilizadora.

Esse processo tem uma consequência direta e muitas vezes subestimada: a revalorização da soberania. Quando as regras deixam de proteger de forma previsível, os Estados passam a depender cada vez mais de sua capacidade própria de defesa — política, econômica, informacional e institucional. A soberania deixa de ser um conceito abstrato ou retórico e volta a ser uma condição material de sobrevivência. Não por nacionalismo, mas por necessidade.

É nesse ponto que a disputa global se conecta diretamente aos países do Sul Global. Em um sistema baseado na coerção seletiva, Estados com menor poder militar ou financeiro tornam-se alvos preferenciais de experimentação. São territórios onde o custo político da exceção é menor e onde a reação internacional tende a ser mais fragmentada. A história recente mostra que esses países não são apenas vítimas colaterais da desordem global; eles são campos de teste ativos da nova lógica de poder.

A América Latina, em particular, volta a ocupar um lugar sensível nesse tabuleiro. Não por instabilidade intrínseca, mas por sua posição estratégica, seus recursos naturais, sua relevância energética e sua capacidade de articulação política autônoma. Quando a coerção substitui o consenso, regiões antes tratadas como periféricas passam a ser observadas com atenção redobrada. Não para integração, mas para contenção.

O que emerge desse cenário é uma ordem internacional menos previsível, mais volátil e estruturalmente mais violenta — ainda que muitas vezes essa violência seja exercida de forma indireta, simbólica ou econômica. O risco central deixa de ser a guerra aberta entre grandes potências e passa a ser a normalização de conflitos assimétricos, operações híbridas e estados permanentes de exceção.

É nesse mundo — um mundo onde as regras já não garantem proteção e onde a exceção virou método — que o Brasil entra em 2026. Não como observador distante, mas como ator inserido em uma disputa global que redefine os limites da democracia, da soberania e da autonomia política. Entender essa transformação não é exercício teórico. É condição básica para compreender por que o Brasil se tornou alvo, por que determinadas pressões se intensificam e por que as escolhas feitas a partir de agora terão efeitos muito além do calendário eleitoral.

O Brasil não entrou no centro do tabuleiro global por acidente, tampouco por voluntarismo ideológico. Sua centralidade atual é produto direto de uma mudança material no sistema internacional e de uma escolha política concreta: a recusa em aceitar a condição de país funcionalmente subordinado em um mundo que voltou a operar por hierarquias duras. Quando o consenso colapsa e a coerção assume o comando, a soberania deixa de ser tolerável. Ela passa a ser um problema a ser neutralizado.

Durante décadas, o Brasil foi percebido como uma potência potencialmente relevante, mas politicamente previsível. Mesmo quando buscava maior autonomia, o fazia dentro de margens consideradas administráveis pelas grandes potências. Esse quadro se altera quando o país retoma uma política externa ativa, reposiciona-se no Sul Global, articula alternativas multilaterais fora do eixo atlântico e passa a tratar temas sensíveis — tecnologia, dados, energia, regulação e desenvolvimento — como questões de Estado, e não como variáveis de mercado.

Essa inflexão não transforma o Brasil em potência hegemônica, mas o retira da zona de conforto do sistema. Ele deixa de ser um ator passivo, reativo ou facilmente enquadrável. Passa a ser um ator que escolhe, negocia, resiste e, sobretudo, propõe. Em um mundo baseado na coerção, essa postura não é vista como legítima autonomia, mas como desvio. E desvios, nesse contexto, precisam ser corrigidos.

O incômodo não está em um gesto isolado, mas no conjunto. A reativação de alianças no Sul Global, a defesa explícita do multilateralismo, a valorização de mecanismos alternativos de financiamento e cooperação, a recusa em alinhar automaticamente a política externa a agendas de confrontação e a insistência em regular setores estratégicos da economia criam uma combinação particularmente sensível. O Brasil passa a operar fora do script esperado para uma potência média periférica.

Esse deslocamento se torna ainda mais relevante quando associado à figura de Lula. Não por carisma ou simbolismo abstrato, mas por capacidade concreta de articulação. Lula não representa apenas um governo nacional; ele encarna uma memória política de soberania possível, desenvolvimento com inclusão e autonomia negociada. Em um sistema internacional em regressão, essa memória é perigosa. Ela lembra que alternativas existiram — e podem voltar a existir.

É por isso que o Brasil não é tratado apenas como mais um país em disputa eleitoral. Ele passa a ser observado como um nó estratégico. Um país com peso demográfico, território, recursos naturais, capacidade industrial, centralidade energética e influência diplomática suficiente para afetar equilíbrios regionais e globais. Quando esse país decide não operar sob tutela, ele se torna alvo de pressão.

Essa pressão raramente se apresenta de forma explícita. Não há declarações abertas de hostilidade nem rupturas formais imediatas. O método é outro. A coerção contemporânea atua por acúmulo: instabilidade narrativa, questionamentos institucionais, ruído econômico, desgaste reputacional e crises sucessivas que, isoladamente, parecem administráveis, mas que, em conjunto, produzem exaustão. O objetivo não é derrubar o Estado, mas reduzir sua margem de manobra.

Nesse processo, a soberania passa a ser reinterpretada como obstáculo. O exercício autônomo da política externa é tratado como irresponsabilidade. A defesa da indústria nacional é enquadrada como protecionismo anacrônico. A regulação de plataformas digitais é apresentada como censura. A........

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